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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 8/19

Não sei se escrevo, se toco, se pinto, se faço filme...

Bondinho – Guilherme Araújo falou uma coisa interessante da época em que vocês foram pra São Paulo, de que você constituía de certa forma num tipo de problema pro grupo, porque você era uma pessoa criativa, tinha música, mexia com várias coisas mas não era um cantor, não era um compositor, nem nada…
Caetano – Não sabia onde me colocar, até que surgiu aquele amigo que dizia assim: “É… você podia ficar então como uma espécie de coordenador”. E eu me sentia muito à vontade nesse negócio, quer dizer, não me incomodaria. Inclusive naquele livro do Augusto de Campos, Balanço da bossa, tem uma entrevista em que eu falo isso pra ele… que eu pensava mesmo que seria um cara que dirigisse shows, é… organizasse o pessoal que trabalhava perto de mim, amigos… orientasse, desse informações, discutisse as coisas com eles, dirigisse e… talvez um dia tivesse uma… uma coluna num jornal sobre o assunto, sei lá… Eu não sei… não é que não pensasse, não acreditava que propriamente houvesse interesse por parte das pessoas em que eu fosse pra o palco e cantasse e gravasse minhas coisas. Mas eu também tinha vontade de subir no palco. Uma das coisas que eu pensei quando tava falando antes que poderia fazer qualquer coisa numa das artes… eu poderia ser ator simplesmente também, entende? Podia ser ator de cinema, de teatro, gostaria de ser, e acho que faria isso bem, se me dispusesse a isso. De modo que eu tinha também vontade de subir no palco, e depois aí tem uma vaidade. Subir num palco é uma coisa que dá um … certo gosto assim, eu acho bacana, por isso é que eu subo no palco e faço frescura, faço mil coisas. Então eu tinha vontade também de cantar e de subir pro palco. Eu falava pro Guilherme, eu dizia assim “olha, eu faria muito bem”. E ele dizia “eu não vejo como “. Porque sou muito tímido, não sou um cara assim extrovertido… falo, brinco e tudo mais, mas se não tenho intimidade com as pessoas sou meio tímido, assim… Hoje em dia sou menos, mas sou um pouco tímido.
Bondinho – Agora, você acha que de alguma forma essa força criativa tua está mais embicada pra música…
Caetano – Não sei, agora já tou dentro da coisa, né? Tenho vontade de fazer outras coisas. Fico com um pouco… querendo parar toda hora, porque quero pensar pra ver se faço outras coisas, porque continua aquele sentimentozinho com o qual vim pra Salvador com 18 anos. Um sentimento de que eu quero fazer um negócio, mas não sei exatamente o que é, em arte. Não sei se escrevo, se toco, se pinto, se faço filme… E continuo fazendo música. Mas não me sinto insatisfeito, não, sacumé? Do ponto de vista de criação.
Bondinho – Nenhuma obrigação de procurar…
Caetano – Também não, não, também, não, não tenho angústia nesse sentido não. Nenhuma. Fico com vontade de parar pra ver. Digo pô, pode ser que pinte outro negócio, eu podia fazer um filme muito bem, tenho vontade, tá entendendo? Agora, filme tem um problema que é o problema da produção, me dá um pouco de preguiça e daí eu sempre desisto quando penso em fazer filme. Pô, tem produção, aquelas câmaras, tem toda a parte técnica e tem aquele gerador… Tem palavras que já pesam no meu ouvido que eu fico grilado, tá entendendo? O gerador… Aliás, mixar e montar é uma parte que gostaria muito de fazer, acho lindo, eu tinha vontade de ser montador, acho que é um barato, um trabalho fascinante.

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