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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 6/19

Não descubro em mim nenhuma vocação para o poder

Bondinho – Veja fez um artigo sobre você, em cima do teu poder. Estabelecendo um poder, o poder de Caetano Veloso…
Caetano – Eu falei que não tenho angústia em relação à criação, mas que tenho angústias em outras áreas; e realmente se há uma coisa com a qual eu tenho uma relação que provoca angústia é isso. Eu creio que não descubro em mim nenhuma vocação para o poder, entende? Não gosto de responder como líder de nada. Quando tenho oportunidade de falar, eu me singularizo, me particularizo, me individualizo. Me angustia o fato de parecer que eu tenho poder, me dá angústia mesmo, muito grande. Me dá um medo como se fosse um destino, entende? Como se de repente uma carga muito pesada ficasse em minhas costas. Então, eu tenho uma reação, e essa palavra pintou muito bem agora: reação… eu sou como que reacionário em relação a isso, entendeu? Eu reajo quase que burguesmente, quer dizer, imediatamente tenho necessidade de dizer pra mim mesmo, pra todo mundo, que tá legal, que eu faço as coisas, que eu quero que as coisas sejam bonitas… mas o que eu prefiro é a felicidade à grandeza. Porque eu não tenho anseio de grandeza. O que eu quero é a felicidade, eu quero calma, quero que o mundo seja real, que eu enfrente as coisas, que eu agüente, que eu possa voltar pra casa, entendeu? Ficar em casa, ficar no lugar que eu gosto de ficar, entendeu como é? Poder passear, ouvir rádio. Porque de repente dá impressão de que sou predestinado… é muito difícil evitar que essa coisa pinte na sua cabeça quando essas coisas acontecem, quando o interesse se torna um interesse desesperado, quer dizer, um interesse que exige demais, isso causa angústia. Ainda mais que eu já tenho esse de… desde menino eu tenho um negócio meio místico, eu era predestinado a salvar o mundo. E quando a realidade às vezes parece confirmar, isso me angustia, entende? Eu não gosto, eu reajo, eu esperneio, eu digo que não tenho nada com isso. Não me negaria a liderar, se eu fosse capaz de liderar, entende? Mas eu não quero que um pouco de talento, misturado com um pouco de charme, seja confundido pelas pessoas como liderança, entendeu? Então, eu tenho medo porque vejo nas pessoas desespero… e eu tenho medo, não sei, eu não posso falar muito nisso, somente isso mesmo. Vamos dizer, tenho impressão de que faço música por acaso. Porque até aos 18 anos, em Santo Amaro, eu pintava, tocava piano, escrevi algumas coisas, fiz algumas músicas, mas principalmente tocava no piano toda música que ouvia. Escutava, sabia a letra de tudo, fosse Caymmi, fosse Noel Rosa, que a gente tinha uns álbuns da Aracy de Almeida lá em casa, fosse toda aquela fase da Nora Ney, com músicas de Antônio Maria, Fernando Lobo, e depois a fase de Dolores Duran, eu sabia tudo. Fosse tudo isso, fossem boleros de Anísio Silva, músicas em espanhol, boleros que faziam sucesso na época, “Vaya com Diós”, qualquer negócio, “Noche de ronda”, tudo eu aprendia e cantava. Mas não tinha nenhum sonho de me profissionalizar nessa área. Fazia isso em casa porque era uma coisa que eu podia fazer. Tinha piano, ficava cantando e tocando. Mas eu pintava também muito, fazia telas, desenhava. E pensava muito mais em fazer pintura do que música. Bom, e ia toda noite ao cinema em Santo Amaro, toda noite mesmo… e como Bethânia falou no Bondinho, a gente fazia dramas, assim, teatro em casa. Mas quando fui para Salvador, comecei a me interessar mais por cinema, quer dizer, não é que “ainda mais”, é que eu comecei a me interessar por cinema de maneira crítica, comecei a ler crítica e a ler alguma coisa de teoria do cinema, esse negócio todo. E colecionava, inclusive, todos os artigos de Glauber que, nessa época, escrevia crítica e dirigia a página artística do caderno literário do Diário de Notícias. E eu colecionava e adorava todo o negócio dele. Por essa mesma época, Salvador estava uma cidade muito efervescente culturalmente. Tinha o Glauber fazendo essa onda de cinema de uma maneira muito viva e também muito violenta; tinha a escola de teatro que tava numa época muito forte, muito criativa, fiquei impressionado também. Então meu interesse pela especialização num campo de arte se tornou cada vez mais confuso. Eu não tinha a menor idéia do que eu queria fazer. Gostava de tudo, me sentia capaz de fazer cada uma daquelas coisas, tinha vontade de fazer todas, e não sabia direito qual ia fazer. Fiquei pensando mais em cinema porque em cinema… na verdade, eu posso curtir todas, entendeu? Não que o cinema seja uma síntese de todas as artes, mas uma pessoa que faz cinema pode eventualmente curtir todas as artes, se quiser. Literatura, música, teatro, pintura. E isso me deixou bastante inclinado a me meter no negócio de cinema, e eu só andava com o pessoal de cinema, ficava fascinado com aquela vitalidade com que o Glauber vinha arrasando com tudo, já com uma pinta, eu sentia ali uma vida incrível, eu sentia que ali ia dar um negócio! E realmente deu, né? Como todo mundo viu. Mas não só eu sentia isso na Bahia. O Glauber não tinha feito ainda filme nenhum, e só através de artigos e de maneira de se comportar na cidade, ele se tornou uma pessoa mítica, já. De certa forma, era um mito para nossa geração em Salvador. Víamos nele uma força qualquer, inclusive havia ódios contra ele, polêmicas a respeito dele, havia quem tivesse raiva dele, porque a presença dele era muito forte, né? Isso tô falando pra dar uma idéia do ambiente que eu peguei quando me mudei pra Salvador. Mas ao mesmo tempo eu continuava. O piano já não estava, ficou na casa velha de Santo Amaro. Então pedi a minha mãe que me comprasse um violão, ela me comprou, comecei a tentar tocar, tocava umas duas, três posições, e ficava cantando com Bethânia, em casa. Saía sempre com ela, como ela contou, né? E a gente ia pra bares, e cantava com as pessoas, as pessoas começaram se interessar pela maneira de Bethânia cantar, pela voz dela, daí eu tocava violão, fazia umas músicas, mas não tinha interesse nenhum pelo negócio. Então conheci um rapaz chamado Álvaro Guimarães que hoje é, que que ele é? Editor-chefe, diretor…
Bondinho – É editor do Verbo.
Caetano – Editor do Verbo, né? Esse jornal de Salvador, e fiquei amigo dele e disse que ia montar uma peça, num sei quê, e conversava muito comigo sobre a peça e eu falava muito em música popular, porque eu tocava, sabia todas as letras de cor, e tinha muito interesse na bossa nova e ele me disse assim: “Bom, eu tô preparando uma peça, e quero que cê trabalhe comigo”. Eu disse: “Tá O.K. Qualquer negócio que cê quiser eu faço”. Ele não me disse o que era, não. Perto da peça, disse assim: “Você vai fazer a música da peça”. Eu disse: “ Como?” “Cê vai fazer a música da peça, Caio” – ele me chama de Caio – “Cê vai, Caio, tem que fazer. Cê vai fazer lindo, tenho certeza”. Aí eu falei: “Mas, venha cá. Eu já lhe mostrei alguma música minha? Eu já lhe disse que faço música?” E ele: “Não, mas eu sei que você vai fazer bem”. Aí eu disse “Tá certo, então eu vou fazer”. Aí fiz a música da peça, e eu mesmo tocava piano durante o espetáculo. Fiz a carreira da peça toda. Daí comentaram que a música tava bonita, num sei quê. Daí ele montou uma peça do Brecht e eu fiz também a música e mostrei o que fazia em casa, uns sambinhas, uns baiões, e ele ficou falando que era maravilhoso e fiquei habituado com o fato de dizerem que eu fazia música. Eu tava no clássico, passei pra Faculdade de Filosofia e não pensava em fazer nada, até que veio o negócio do Vila Velha, que é bem sabido. Conheci Gil e quando foram inaugurar o Vila Velha, quiserem que a gente fizesse negócio de música popular, a gente fez e, de certa forma, a música foi me levando, a música popular foi me levando e eu não tenho mágoa nenhuma por ter me deixado levar, porque realmente adoro música popular. E se, por exemplo, eu estivesse fazendo cinema, sem dúvida nenhuma estaria fazendo cinema e escrevendo sobre música popular. De alguma maneira estaria ligado a isso. Sempre considero um acaso. E muitas vezes penso em parar. Digo: “Vou parar com isso, porque comecei com esse negócio de música, mas num tô propriamente nesse negócio, não”, sabe como é que é? Eu tô completamente, tenho um amor enorme, profundo, mas não tenho planos…
Bondinho – Você não tinha compromisso com você mesmo…
Caetano – Eu, até hoje, não tive uma idéia do que queria fazer, porque não sei exatamente o tipo de arte que é pra eu fazer, entendeu? Tenho impressão que faria bem qualquer tipo de arte, entendeu? Bastava que me exercitasse um pouco dentro dela. Porque quando me vejo fazer música, eu não sou muito musical. Tecnicamente, não sou. Posso fazer, porque tenho um gosto pela forma, assim, que eu posso fazer em qualquer campo. De modo que isso talvez tenha ajudado muito, tenha permitido que o tipo de música que vim a fazer não é bem música, quer dizer, o que eu faço é um negócio que diz respeito a várias formas de arte, entendeu? Do ponto de vista da estética cinematográfica tem muita coisa dentro da minha criação. Também de literatura, de poesia, quer dizer, não especificamente de música popular. E com o negócio que me pareceu necessário fazer na época que nós fizemos, foi um negócio assim meio na base da mistura total, calhou bem, deu certo. Eu tava numa posição que permitia que saísse um negócio desses. Uma espécie de um destino assim, que deu certo, naquele momento.

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