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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 5/19

Sinto muita angústia, tenho muitos grilos estranhos

Bondinho – Já duas vezes, a gente conversando aqui, você citou a coisa descomprometida, o acaso…
Caetano – … influindo…
Bondinho – diretamente no resultado do seu trabalho. Ao mesmo tempo, você refletiu tranqüilidade com relação ao que fazer quando pinta esse acaso. Isso é bem marcante em você, começa a acontecer uma coisa, você começa a reagir e tem segurança que reage bem diante dela…
Caetano – Olha, com relação à criação, eu tenho tranqüilidade. Sempre tive. Tenho demais. Nem ligo, sacumé? Não tenho grilo nenhum, não faço esforço nenhum. Tenho impressão de que acerto fazer as coisas, vou fazendo… engraçado isso, porque é como se já tivesse o esforço, tá entendendo, quando eu era menino… Talvez seja isso que a gente chama de talento, a gente quando é menino, quando você vai se formando, você se educa, num determinado sentido, de uma vocação, sei lá, entendeu? Sei o que posso fazer, então faço umas músicas… É exatamente assim, nesse ponto de criação. Agora, eu não sou um cara tranqüilo, não. Sinto muita angústia, tenho muitos grilos estranhos, cê tá entendendo? Mas não tenho ansiedade em relação à criação. É estranho isso, não tenho mesmo… É como se eu não me preocupasse muito. Eu não entendo direito. Por mais que eu saiba, veja, não vivo como se fosse perigoso, como se fosse de verdade. É um pouco como se fosse brinquedo, como se fosse brincadeira… Eu não tenho, por exemplo, medo de não fazer. Não é como se fosse, assim, se eu não fizer eu morro, tá entendendo? Estranho… Ao mesmo tempo, é só o que eu gosto, e não sinto medo porque não imagino que seja possível não fazer, sacumé? Acho que é por isso. Acho que faço o que sempre farei, não tem problema… Nunca fica uma coisa, assim, de vida ou morte, entendeu?

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