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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 4/19

Londres é muito chato, e é muito bom

Bondinho – Londres… o que foi realmente pra você. Teve um disco que você não fala dele com muito entusiasmo. Tem outro que você já fala com outra disposição…
Caetano – É porque realmente teve duas fases muito diferentes. No princípio eu não gostei. Eu já tava com o saco cheio de música pop, de zoadeira, aquele negócio de festival, entendeu? Todas aquelas coisas eu não gostava, achava imensamente desagradável, não achava nenhum interesse naquilo, só ficava pensando na Bahia, e com saudades. E ficava dizendo assim: carnaval é muito melhor. Ainda hoje acho que carnaval é muito melhor, claro que é… Mas o que divide mesmo minha estada em Londres foi depois que eu vim ao Brasil a primeira vez. Daí quando eu fui pra lá, foi completamente diferente, porque eu sabia que podia voltar pra cá e me sentia muito melhor. Então eu transava mil, gostava… Londres é muito chato, e é muito bom. É um lugar interessantíssimo. As pessoas são muito especiais, diferentes de todo mundo, mas eu não tenho muito o que falar de Londres, porque é um negócio que ficou meio vazio na minha cabeça… Teve coisas que foram bacanas. Por exemplo, eu fiquei ouvindo melhor as músicas, as letras, reouvi os Beatles direito, porque eu não conhecia realmente direito, entendeu? Revi o que foi feito no Brasil durante esse tempo, por ter visto toda essa coisa… Achei fantástico como tudo aconteceu no Brasil, fiquei entendendo melhor. E principalmente esse negócio de John Lennon, que foi ótimo, esse disco dele que aliás não saiu aqui, que foi proibido, né? Isso foi muito bacana, eu adorei, e fiquei muito interessado no negócio de música lá, vendo tudo, sabendo como tá acontecendo, entendeu? Vendo que tá muito parado. Fiquei muito contente com o disco de John Lennon, achei fantástico porque é uma atitude que eu tomaria, era a crítica que tinha vontade de fazer, foi muito bacana aquele “The dream Is over”. Eu falava exatamente isso, toda a coisa. Era quase óbvio, mas eu tava falando muito disso e fiquei contentíssmo. Vi o Lennon cantar uma vez com a Yoko. Vi os Stones duas vezes. Foi ótimo pra mim. E todo aquele relaxamento que eu falei no princípio tá relacionado com minha estada em Londres… Quer dizer, fiquei fora sem compromisso nenhum, e isso deu possibilidade de me reaproximar da música brasileira de uma maneira, assim, bem linda, sabe?

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