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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 3/19

“Isso aqui é uma prévia do espetáculo do Brasil”

O Bondinho – Eles haviam acompanhado alguma coisa, visto bossa nova ou alguma referência…
Caetano – Se eles não sabiam muito bem de música brasileira, pelo menos de outras coisas do Brasil eles sabiam e o interesse deles já continha um elemento anterior ao próprio espetáculo. Então foi uma experiência muito engraçada. Eu disse ao Macalé e ao Guilherme e aos meninos, quando a gente saía de lá: “Isso aqui é uma prévia do espetáculo do Brasil.” Porque foi uma coisa completamente diferente, foi um espetáculo muito bom, nós adoramos. Foi um dos espetáculos que nós fizemos com mais calor, musicalmente, né? Em Paris as pessoas começaram a discutir, por exemplo, as intenções; coisas que na Inglaterra as pessoas jamais me perguntavam. Jornalistas franceses tinham esse tipo de preocupação. Se era intencional dançar em determinados momentos, se significava alguma coisa. Agora, o mais engraçado é que essa exigência foi muito maior em Paris do que no Brasil quando nós chegamos. No Brasil houve muito mais relaxadamente, por parte seja do público, seja da imprensa. Talvez porque a maior parte dos brasileira que estão vivendo em Paris ainda esteja vivendo um tipo de visão da cultura brasileira que aqui, de certa forma, o pessoal já não está mais vivendo; talvez porque essas pessoas tenham ido pra lá há já muito tempo, não sei, eu não moro em Paris, não morei lá, mas me deu essa impressão. Agora, o espetáculo que eu fiz no Brasil eu adorei, gostei tanto que, depois que passei o carnaval na Bahia, e fiquei esse tempo todo parado, época de carnaval, férias, essa coisa toda, pra recomeçar depois, não deu mais pé. Porque foi uma coisa muito bacana pra mim, tinha uma espontaneidade tão grande, e que eu sei que agora não está dando mais, o negócio já ficou gasto, já cansou, já não é mais a mesma energia. Então eu teria uma excursão por outras capitais do Brasil agora depois desse espetáculo da TV Globo no Teatro Municipal. E eu pedi ao Guilherme, e ao pessoal da Aquarius que tava acertando essa excursão, pra cancelar, parar por agora, porque pra fazer assim não dá pé. Prefiro que essas pessoas de outros estados recebam o eco do que aconteceu no Rio, em São Paulo, Salvador e Recife, do que eu vá pra lá e já mostre resto de jantar abaianada – que foi um negócio que eu falei quando vinha fazer o espetáculo aqui no Municipal, eu escrevi no programa: “resto de janta abaianada”, porque era um negócio que já estava cansando, Gil não, porque Gil preparou tudo já no Brasil, então o negócio dele está completamente novo, e é absolutamente maravilhoso. E você vê que tem muito mais capacidade de resistência ao tempo do que o que eu fiz, porque é um trabalho musicalmente mais rico, é claro, como era de se esperar do Gil. E por outro lado – por outro lado, não, pelo mesmo lado – é um trabalho mais experimental. O meu era assim mais ou menos relaxado, descontraído. Eu acho que a coisa mais precisa que se pode dizer sobre o espetáculo que eu fiz é isso, uma coisa descontraída, era só o que eu queria que fosse, porque eu não tinha nenhuma informação a dar, a não ser o seguinte: que eu tava cantando, que eu tava bem, que eu tou legal, que eu tou à vontade. Fiz um espetáculo com uma descontração que eu não tinha antes. E isso é que é bom, eu me sentia muito feliz fazendo.
Bondinho – Como você tava contando, o trabalho começou a partir da gravação do LP… e o LP mantém uma característica do espetáculo? Isto é, você canta música dos outros?
Caetano – É muito parecido com o espetáculo o disco, eu acho. O disco devia estar saindo. Houve um atraso por causa da capa, mas devia estar saindo agora por aqui. Queria que saísse logo porque é tão parecido com o show! Acho que de uma certa forma fechava assim…
Bondinho – De alguma forma, você acha que foi percorrido um caminho de criação até agora, e estaria sintetizada toda uma fase de todos os tipos de trabalhos seus nesse espetáculo… ou já é teoria em cima da coisa?
Caetano – É um pouco difícil pra eu falar mas, de qualquer forma, não havia o pensamento de fazer um espetáculo que fosse sintético, de fazer uma coisa que sintetizasse o que passou, quer dizer, porque era uma intenção de demonstrar um descompromisso, mais do que tudo.

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