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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 2/19

O show nasceu de um trabalho que eu e Macalé iniciamos

Bondinho – Na sua volta, o show que você fez mostrava um tipo de trabalho desenvolvido durante todo o tempo que você esteve fora, quer dizer, reapareceu diante do público aqui no Brasil com uma seleção de músicas, um tipo de apresentação, que provocaram impacto e uma série de interpretações… queria ver se dava pra você falar da construção desse show, de como você se colocou daquela forma no show.
Caetano – Em primeiro lugar, eu queria ressaltar a coisa da seleção de músicas. Isso pra mim foi o ponto mais claro da construção desse show – a escolha de músicas que não fossem minhas. Desde sempre eu gostei muito de cantar músicas de outro compositor, porque eu gosto de cantar. E, quando a gente canta a música da gente, parece que tá mostrando uma coisa que fez e não que tá cantando uma música que existe, entendeu? Eu não sinto, quando canto uma música minha. Não sinto aquela emoção profunda que dá quando canto um baião velho, um samba do Chico, ou uma coisa qualquer, tá entendendo? Quer dizer, a primeira coisa que eu pensei foi: “vou cantar uma série de coisas que não sejam minhas porque eu quero ter o prazer de cantar”. E isso até em casa, sempre, que eu sempre canto muito música, música velha, música de todo tempo, música de todo mundo. E eu queria fazer isso no show, também. Coisas mais assim que eu faço em casa, e que eu faço sem compromisso pra já colocar no espetáculo uma postura, pra eu já entrar no espetáculo com uma postura de não compromisso. Uma vez decidida a linha, o resto foi todo dentro dessa postura. Acho que o que me faz gostar tanto desse show é o fato de eu ter conseguido fazer uma coisa completamente descomprometida com as colocações já existentes em música brasileira, mesmo as minhas próprias colocações, entendeu? Agora, o show foi nascendo de um trabalho que eu e Macalé iniciamos com o Moacir, Áureo e o pessoa todo, pra gravar um disco em Londres, ao mesmo tempo que apareciam convites para nos apresentarmos em diversos lugares da Europa, Suíça, França, a própria Inglaterra, e isso foi transformando o que a gente tava ensaiando, num espetáculo, de modo que esse espetáculo era uma forma organizada de todos aqueles que fizemos lá. Uma das coisas que eu fazia questão era estrear logo que chegasse no Brasil. Eu disse ao Guilherme: “Não quero ficar nem um mês no Brasil sem trabalhar. Quero chegar e estrear, imediatamente”. Porque, se não, muda todo o sentido…
Bondinho – … pra não se impregnar das coisas preexistentes…
Caetano – … é, não queria saber o que é que se estava dizendo por aqui, pra fazer realmente como quem não tem compromisso nenhum. Porque isso traria uma verdade bruta, que era o fato de eu ter estado fora esse tempo todo e, estando fora, você está realmente desligado de todas as tendências, as fofocas e as opiniões, as brigas e os desvios, etc. Quer dizer, quando você tá num lugar onde não tem obrigação de responder coisa nenhuma, simplesmente as pessoas vão ver se você canta, se tá tudo bem tocado. Então, você sente uma liberdade enorme. Quando eu fazia os espetáculos em Londres, Paris e outros lugares da Europa, eu fazia com a maior calma, a maior tranqüilidade e a maior desenvoltura, porque eu não tinha que prestar contas a ninguém de nada.
O Bondinho – Não havia o compromisso de se mostrar pra haver a comparação com a imagem já existente…
Caetano – Pois é, é isso, exatamente. O único lugar onde isso aconteceu foi Paris. Primeiro pelo número de brasileiro que há em Paris, e segundo pela semelhança do próprio clima da cidade, os hábitos, o tipo de discussão cultural que há por lá, a semelhança desse tipo de discussão com o tipo de discussão que se tem no Brasil, principalmente no Rio. Então, a reação do público era muito diferente, muito comentada. Era uma reação muito brasileira, nesse sentido. Em primeiro lugar, porque 90% da platéia era brasileira. E, em segundo lugar, os franceses que foram ver eram interessados em coisas do Brasil. De uma maneira ou de outra, havia certo compromisso.

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