gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 19/19

Afirmar raizezinhas nacionais não resolve o problema

Bondinho – Numa certa época do tropicalismo, vocês questionavam criticamente as incoerências da importação que transformava, da importação que não transformava, e abriam a área de atrito da MPB, porque, mesmo transformando, vocês tavam usando uma importação, enfim, já havia milhares de pontos levantados…
Caetano – É. Quando eu digo que lembro com alegria dessas coisas da fase da tropicália, é porque sei que a colocação que a gente tá explicitando aqui estava realmente implícita no trabalho que a gente fez na época. E que praticamente tudo o que aconteceu depois tava atrasado em relação àquilo. Digo isso sem modéstia. Isso é verdade, tá entendendo? Toda a colocação que hoje a gente pode explicitar tava implícita já nosso trabalho.
Bondinho – E também, já que você conseguiu expressar esse saturamento, a coisa toda, de que forma você expressaria – não quero catalogar – essa “reaproximação”, essa “religação” com a música mais brasileira…
Caetano – Eu tô entendendo o que você tá dizendo. Na verdade, quando eu tava contando todo esse processo de saturação do pop pra mim, etc., eu não me referia a isso que você falou aí agora, um “movimento de reaproximação” com a música brasileira. Porque não houve esse movimento em mim. Se você pegar os discos que a gente fez na fase da tropicália e ouvir seguidamente, vai ficar assustado pelo quão pouco de pop há naquilo. É incrível, principalmente na minha discografia pessoal. De modo que não houve esse movimento, minhas ligações com a MPB continuaram sempre sendo as mesmas.
Bondinho – Quer parar um pouco?
Caetano – Não. Tem uma coisa que eu queria dizer. Porque tem o seguinte: por exemplo, você veja o jazz. O jazz foi um tipo de manifestação musical que interessou o mundo todo. Você tem grandes jazzmen alemães, franceses, japoneses. Em toda parte. É um tipo de música que qualquer um pode fazer, porque isso simplesmente é um fato real do nosso tempo, o mundo se comunica todo.
Bondinho – O mundo também perde o seu “provincialismo”, aquele sentido de maior…
Caetano – É claro que há o perigo de uma grande centralização terrível, opressiva. Mas, não é afirmando raizezinhas nacionais e jogando fora todos os frutos, que você vai resolver o problema. Uma experiência como a de Gil, que está interessado no desenvolvimento de uma linguagem sugerida pelo rock, pelo pop, é uma linguagem pela qual ele quer se expressar e ele manda bala. É quase uma invenção de uma nova coisa. Quando o jazz apareceu… não é um estilo regional, é um novo mundo, um novo universo de relações no qual você pode entrar e transar, entendeu? E o pop também criou isso, criou um universo de relações que você pode utilizar; quer dizer, e isso é um negócio que aconteceu com o Gil e que não aconteceu comigo, simplesmente porque não é o meu caso. O que eu quero fazer, o que eu faço, é um outro negócio, tá entendendo? Eu continuo fazendo músicas, não sei em que classificação podem ser colocadas, também não me interessa que sejam classificadas e não sei o que vou fazer depois, tá entendendo? Tou com vontade de fazer umas coisas de música.. Por isso quero parar, ficar na Bahia, pra trabalhar, pra fazer um negócio diferente… que eu tô pensando umas coisas assim… tá entendendo? E quero cantar muito, quero fazer um negócio bem pra cantar, muito pra cantar mesmo…

Tags
Caetano Veloso
de 19