gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 1/19

Caretano sou eu

Bondinho – Quem é o Caretano?
Caetano Veloso – O Caretano sou eu. Foi o Rogério Duarte [n.e. Baiano de Ubaíra nascido em 1939, Rogério Duarte é artista gráfico, músico, poeta e tradutor. Figura-chave do tropicalismo, criou célebres capas de discos de Caetano, Gilberto Gil, Jorge Ben e Gal Costa, além dos cartazes dos filmes Deus e o diabo na terra do sol e Idade da terra] que botou esse apelido em mim. Porque eu sou careta e pega bem com o nome. Ficou Caretano, eu adoro esse nome. Caretano… eu adoro quando o pessoal me chama.
Bondinho – Você se considera careta em que sentido? Não no sentido formal do rótulo, né?
Caetano – Não, depende. Porque toda palavra, toda a gíria, é muito vaga, né? Inclusive às vezes me cansa quando as pessoas falam só em gíria, algumas terminam não dizendo nada. A gíria facilita… é maravilhoso porque a gente começa a usar muita gíria quando a linguagem que todo mundo tá usando não serve mais pra definir certas coisas. Quer dizer, linguagem muito carregada de gíria nasce de minorias, né? E é uma forma também de defesa, uma forma de entendimento rápido, e é maravilhoso. Um grupo que está em maior ou menor medida marginalizado da sociedade, a primeira necessidade é inventar uma linguagem nova, né? Por exemplo, quem falava mais gíria no Brasil antigamente era o pessoal dos morros do Rio, entendeu? Marginalizados da vida da cidade eles tinham uma linguagem própria. Como vive uma realidade diferente, o cara tem que usar palavras para sentimentos e situações muito particulares e que não são iguais ao que toda a cidade fala, não pode ser a mesma linguagem. É uma coisa fantástica. Então, de certa forma, ultimamente todo o pessoal da classe média, o jovem, se identificou com isso porque se sentiu marginalizado ou se automarginalizou do todo da sociedade. Seja em maior ou menor medida há uma marginalização e uma automarginalização da juventude da classe média, né? Tudo isso que se chama hippie, juventude transviada, freaks, etc., tudo isso é que a gente se marginalizou de certa forma da sociedade em maior ou menor medida. Mas chega o momento em que me sinto um pouco chateado quando o pessoal só fala gíria. Porque você perde a precisão, tá entendendo? As palavras são vagas, uma palavra serve pra mil coisas: isso é lindo porque é poético, você cria uma palavra que é sintética. Quando você fala “grilo”, não pode traduzir literalmente por medo, não é que você escolheu uma palavra pra substituir medo. Grilo é um tipo de sentimento que não é propriamente medo, entende? Então abrange uma área de significados muito grande, vaga e mutável.
Bondinho – E antagônico também.
Caetano – É, em geral vira pro oposto também. É muito comum isso em gíria. Quando você diz careta, o que que é? O careta em princípio é o cara que tá por fora daquela onda que você tá, entendeu? É como falar straight em inglês. Na Inglaterra, a pessoa tá numa onda qualquer, ou fumou maconha, isso desde o tempo de moço eu ouvi falar. A pessoa tá na onda. Quando não tá, tá careta, tá como todo mundo, que é aquela… E se fala também pra bebida, eu não bebi nada, tô completamente careta, quer dizer, tô de cara limpa… Então, o negócio é o seguinte: eu não fumo maconha, não tomo ácido, eu bebia muito quando morava no Rio e na Bahia. Depois que fui pra São Paulo, diminui, quase não bebia. Então, não bebo, não fumo maconha. E, depois, não faço nada. Tenho uma vida muito tranqüila. Vivo muito em casa, só com Dedé, sabe como é ela, uma vida meio assim, sacumé, sou casado, vivo assim com Dedé. Mas é muito engraçado… porque aquele negócio de deixar o cabelo grande, as músicas que eu fiz, a maneira de me comportar, muita gente achou que eu tivesse realmente me distanciado demais da maioria dos hábitos do… careta, do homem comum. E, de certa forma, é surpreendente pra certas pessoas que não me conhecem de perto, que eu tenho uma vida careta incrível, sacumé? Eu tenho uma vida careta perfeita. Meu barato é muito parecido com uma vida careta. Então, fica uma coisa engraçada, eu faço auto-ironia e o pessoal botou meu nome de Caretano. Então, adoro esse nome. Quer dizer, não é careta, é um tipo especial. Não é nem careta nem freak, é o Caretano, é um negócio…

Tags
Caetano Veloso
de 19