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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 18/19

Gil é um dos músicos mais bacanas que tem no mundo

Bondinho – O saturamento do pop: como ele chegou a você…
Caetano – Olha, aconteceu de maneira muito pessoal, que coincidiu com o estado geral da música pop no mundo. Como naquela época da tropicália quando eu tive muito interesse em ressaltar diversos pontos que eram maliciosamente ignorados pela inteligentzia brasileira. Entre eles, a música comercial, ou seja, a música de Roberto Carlos, Celly Campelo, Erasmo, Wanderléa. A música de juventude que o Brasil inteiro cantava, o mito de Roberto Carlos, tudo isso me interessou, entendeu? Falo bem pessoalmente, né? Então, foi uma das coisas que eu também lancei no meio das coisas, o negócio de usar guitarra elétrica na música, de usar um conjunto iê-iê-iê pra acompanhar a música, que era uma marcha bem brasileira, com uma melodia bem portuguesa, por sinal. Isso era um dos elementos que usava entre outras coisas, tá entendendo? Não tem nada com adesão a um tipo de coisa que já se fazia, não… Era um dos elementos pra provocar determinadas discussões que eu queria provocar, tá entendendo? Daí aos Beatles, principalmente através do Gil, que tinha muito interesse neles, e por fim, o Jimi Hendrix [n.e. Virtuoso guitarrista americano que formatou os primeiros passos de sua carreira-solo na Inglaterra, onde lançou em 1967 o emblemático Are you experienced?. Vìtima de overdose de remédios e bebida, morre em 1970, aos 27 anos de idade] e… outras coisas… vários discos de música pop tocavam lá em casa… eu ouvia, e gostava dos Beatles, e o long-play Sargent Peppers me ensinou muito. Então, tive um interesse muito grande… Mas depois comecei a ficar cansado, ainda em São Paulo, né? Aqueles discos, aquele som, eu já não distinguia um conjunto do outro, começava a ficar uma geléia geral na minha cabeça. Então, comecei a dizer ih…, tá entendendo? Mas ia fazendo minhas coisas, trabalhava com o que pintava, fiquei trabalhando com os Beat Boys [n.e. De vida curta, o conjunto integrado por brasileiros e argentinos acompanhou Caetano no III Festival de MPB da TV Record (1967), quando cantou “Alegria, alegria”. Gravou com Ronnie Von (em sua fase psicodélica) e lançou um único LP (Beat Boys, RCA Victor, 1968)], que eram ótimos. Depois fiz uma faixa com os Mutantes num disco e apresentações com eles – os Mutantes tinham interesse de saber o nome de todos os conjuntos, sabiam coisas de rock, de pop, queriam saber tudo, eles gostam, são os caras que no Brasil estão mais por dentro desse negócio; pelo menos naquela época eram os mais por dentro, conheciam o estilo, não-sei-que-lá. Eu não tava muito ligado nisso, já tava um pouco cansado pessoalmente, né? Daí, veio aquela confusão toda, que a gente foi preso, eu fui pra Bahia, depois pra Inglaterra, e daí já tava esse negócio de ouvir muita coisa importada, e se falava muito em Jimi Hendrix, e Janis Joplin – eu gosto muito – e se ouvia mil conjuntos, mil discos, e eu nem conhecia, tá entendendo? Quer dizer, esse tipo de música tava ligado a todo um tipo de comportamento, a um mundo de referências e pontos de interesse de uma geração da Inglaterra ou Estados Unidos, tá entendendo? E que, de certa forma, tava chegando no Brasil atrasado e, sem dúvida nenhuma, com um aspecto de imitação e necessidade de se identificar com a juventude dos países desenvolvidos, entendeu? Eu sentia, nessa coisas, ainda uma vez, essa necessidade brasileira. Não é um piche ao que aconteceu, não tenho nada contra. Isso é compreensível, razoável, tá certo…
Bondinho – Como fenômeno, como…
Caetano – … como tudo, entendeu? Mas o que eu quero dizer é que tive uma necessidade muito profunda de me defender contra a identificação com essa coisa, como se eu estivesse ligado diretamente a isso, e só… Como eu falei antes, isso era um dos elementos que entraram na coisa, através de um fenômeno brasileiro que era o Roberto Carlos, e era o próprio fenômeno da importação, que era discutido nessa coisa da tropicália. Quer dizer, havia ao mesmo tempo a fossa do “a gente sempre importa!”, e também a necessidade de dizer “eu não quero mais importar” também, entendeu? E também mostrar a possibilidade de transformação que a cultura brasileira teve, por exemplo, numa pessoa como Roberto Carlos.
Bondinho – De transformar a própria importação e dar um sentido nacional, pessoal, diferente…
Caetano – E também não é nenhuma ambição nacionalista da minha parte querer afirmar o meu país frente aos outros, não. Eu, humildemente, aceito essa situação, entendo ela, mas é necessário apontar outra saída, apontar… não é que eu queira dizer que a gente tentou apontar outras saídas, mas é preciso dizer que a gente via que era preciso mostrar às pessoas os muros do nosso confinamento, pelo menos, né? Pra daí você ter uma atitude saudável. Porque não sou nacionalista, e não advogo nenhum nacionalismo, mas entendo que, sem dúvida nenhuma, somos uma nação e, queiramos ou não, nos comportamos como tal. E isso é um fato, quer dizer, não é uma opinião, é um fato.
Bondinho – É uma constatação.
Caetano – É uma constatação, é isso que eu queria dizer, entende? Então, esse negócio do pop, quando eu fui pra Inglaterra, eu já estava nesse estágio de discussão dentro de mim mesmo. Agora, acontece o seguinte: o Gil, como músico, o interesse dele por esse negócio todo, e eu acho fantástico, porque, sabe o que ele fez? Simplesmente ouviu tudo isso e hoje no mundo é uma das pessoas que fazem com isso uma das coisas mais interessantes, mais novas, mais criativas, mais vivas e salutares. Eu falo isso e as pessoas da Inglaterra, americanos, em papos, em jornais, falam isso, também. É o óbvio, tá entendendo? Gil é um dos músicos mais bacanas que tem no mundo. Quer dizer, isso é o negócio do Gil, ele teve interesse nisso até o fim. E a época em que fomos pra lá foi a época do início do que talvez a gente possa chamar de decadência ou fase de diluição dessa coisa. E a minha amargura coincidiu com esse momento, eu via bem mais isso do que curtia o barato do que tava acontecendo, cê tá entendendo? Possivelmente porque sou menos músico do que Gil, quer dizer, não tenho vocação tão verdadeira qual Gil pra música. Então eu ficava vendo criticamente essa diluição, e eu falava isso com Gil e Gil entendia. Ele contou isso no Bondinho dizendo o negócio do “Sonho acabou”. Ele disse assim: “Eu fiz isso atrasado mas só fiz depois, Caetano falava muito, mas eu só vi, depois”. Mas antes do John Lennon. Quando o disco do John Lennon saiu eu disse: “Pô, que coisas, era isso que eu tava dizendo!” Porque a gente falava em casa exatamente o que saiu. Então era uma coisa muito pessoal…

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