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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 16/19

Chega de Saudade mudou a forma do povo ouvir conversa

Bondinho – Uma pergunta, sem sentido provocativo, mas para o sentido de colocação de sua parte: João recebe uma série de não entendimentos dentro do Brasil, seja por parte da imprensa, enfim, uma série de não entendimentos, tanto que ele vem, fica um pouco, e sai. Qual é a sua visão disso? As mil transas que houve por causa do programa de televisão… iam passar, não iam…
Caetano – Eu acho o João Gilberto um sujeito radical. Ele tá ali naquele negócio dele e não arreda. E é difícil agüentar tanta grandeza, não é? Se você se lembra do início da bossa nova, vai perceber isso muito bem. O João Gilberto ficou muito tempo sem gravar e parecia impossível que algum dia gravasse. E ele vinha em linha reta no caminho dele, sem se afastar. O encontro dele com Tom, Vinicius, Carlinhos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Menescal, enfim, o aparecimento da bossa nova, o interesse desse grupo de bons músicos no Rio de Janeiro, principalmente o Tom Jobim que é um gênio, permitiu que aquela força que ele trazia encontrasse uma mediação, fosse possível, tivesse um lugar no mundo. Então, o que há é o seguinte: o João tinha uma visão muito profunda e precisa do que ele queria fazer com música e isso encontrou repercussão naquele momento nos interesses de diversas pessoas que estavam fazendo música no Rio, e que ele encontrou, e daí foi isso que se chamou de Movimento da Bossa Nova, né? Sem dúvida nenhuma, de todo o pessoal da bossa nova, quem demonstrou maior radicalidade foi o João. Nada tem hoje a atualidade que os discos de João Gilberto têm. Tudo isso são sintomas de um rigor raro que você encontra em raríssimos artistas no Brasil. Que talvez você não encontre em nenhum. Então essa coisa, quer dizer, quando um artista é assim, é difícil que a mediocridade necessária para a maioria das pessoas sobreviver, em determinadas áreas – suporte. Tom Jobim escreveu na contracapa do primeiro LP do João, Chega de saudade, assim “O João não menospreza a sensibilidade popular, ele acha que há um lugar para a simplicidade, e para a simplicidade das palavras e das notas… alguma coisa assim, não é? Então, o fato é que realmente parece haver mesmo lugar na sensibilidade popular para coisas como essa. Acho que uma coisa de tamanha força teria necessariamente de encontrar resposta no seio das populações das cidades brasileiras. E o fato é que o LP Chega de saudade, embora tivesse encontrado a reação mais estranha por parte das donas de casa, críticos de música, é… pessoas desse tipo, o fato é que aquele negócio ali mudou a maneira do povo brasileiro ouvir, mudou a maneira do povo brasileiro ouvir até conversa. Pra mim é uma coisa de maior profundidade, não é negócio de “foi uma moda diferente”, não, um negócio mesmo com uma profundidade incrível, porque o João passou anos curtindo a maneira de dizer as palavras, ele fala as coisas como se fosse pela primeira vez, quem ouve aquilo naturalmente, passsa a ouvir diferente, sacumé? O João foi um grande inventor e, como sempre acontece, apareceram muito diluidores, e a coisa ficou aceita oficialmente, pela opinião pública e pela imprensa, então a bossa nova era uma glória do país. Fez sucesso nos EUA, etc., etc. e todo mundo achou legal, todo mundo dizia, “Tenho discos de bossa nova”. Depois o tempo foi passando muitas coisas aconteceram, depois veio o negócio da tropicália, que deu um pau arretado também, né? Quando foi agora, o João veio ao Brasil, se comportou da maneira que sempre se comportou, não arredou um pé, não é? E a imprensa brasileira, na sua imensa mediocridade, reagiu ofendida, por João Gilberto não lhe dar nenhuma importância. Ou seja, só lhe dá importância de uma maneira muito sábia e muito maliciosa, digo maliciosa no sentido de sabida, saber dar aquele plá só na hora certa e saber usar sem se envolver. E não é fácil pra esse pessoal agüentar uma coisa daquela. Não é um cara que tá aí nas revistas de todo dia, não é nenhum Caetano Veloso, tá entendendo? Então os caras se sentiram na maior liberdade de esculhambar. Acho que porque João Gilberto não deu entrevista, não falou com jornalista, e só falou acho que com o Tárik…
Bondinho – É, deu uma entrevista…
Caetano – Deu uma entrevista lindíssima, como um golpe de caratê. Então, acho que os caras receberam ordem de pichar o João Gilberto, aí picharam. Principalmente esse cara, Carlos Heitor Cony. Eu nem tinha lido. Depois na véspera de eu ir pra Inglaterra de volta, eu tava aqui em casa e vi uma Fatos e Fotos de semanas anteriores, vi vários artigos sobre o João Gilberto e fui lendo e tinha esse artigo desse cara. Rapaz! É um sujeito ignorante, de uma ignorância incrível, dizendo que o João Gilberto pensava que era a Greta Garbo, coisas assim, né, o maior desrespeito, um cara imbecil, não entende absolutamente de nada, senta a bunda na redação do jornal pra escrever besteiras sobre um cara que é um gênio, tá entendendo? Então eu fico com muita raiva quando se fala mal do João Gilberto, eu detesto, tenho vontade mesmo de responder, em geral eu quero responder. O fato é o seguinte, as pessoas fingem – e como comigo e também com o Gil: se tiver oportunidade cai todo mundo em cima, porque as pessoas fingem que gostam, entendeu? Fingem que estão de acordo, pra não passar por desatualizado. Não sei o quê, mas ninguém tá entendendo nada. Essa é que é a verdade. Essa gente que escreve em jornal, essas coisinhas a maioria só fala bobagem. Então eles não têm peito, são pessoas medíocres, têm que sobreviver, precisam ganhar dinheiro… é desumanidade também exigir que cada pessoa seja de uma grandeza infinita. O que eu quero dizer é o seguinte: eu entendo esses caras, que a barra para eles é pesada, mas também a gente não pode deixar, né? Que essas minhocas atrapalhem as coisas mais importante que estão acontecendo. Na época do tropicalismo, eu pensava em recuperar tudo, e uma das coisas que me chamou atenção primeiro foi a Elis. De certa forma era a que eu menos gostava, na segunda fase da bossa nova. Daí fiquei com uma… senti uma coisa afetiva assim pela Elis, aquele negócio dela ter aquele programa Fino da bossa em São Paulo e fazer aquele sucesso todo, pra mim ficava em outro nível, mais uma coisa como a Rádio Nacional, entende? E eu via aquilo com certo carinho. Era a própria coisa da televisão, era bem o negócio de São Paulo. Da TV Record, a massificação de uma imagem, e a coisa dela ser viciada, ter gestos muito caracterizados, muito marcados, eu reconhecia como uma necessidade de linguagem de televisão massificada. Então me dava um carinho por aquela mulher no meio daquela arrumação toda, tinha aquela mulherzinha ali, com uma afinação incrível, com uma capacidade técnica que nenhuma cantora no Brasil tem, essa é que é a verdade. Então ficava assim, olhando, com muito carinho. Quem junto comigo considerava todo o resto, menos João Gilberto, como quase vulgaridade, era a Gal. Éramos muito radicais nesse ponto, ouvíamos só João. Ouvíamos o resto pra aprender o que existia, mas considerávamos coisa de “pouca monta”. Então eu já tava aqui no Rio e a Elis tava com show no Zum-Zum, acho que até com o Baden, e eu vi o show e fiquei comovido. Levei a Gal pra ver e Gal ficou também… Foi uma coisa maravilhosa, uma descoberta. Mas eu não liguei muito pra essa fase da bossa nova não, porque era exatamente a coisa que nós lutávamos contra. A única coisa que nos emocionou nessa época foi exatamente a Elis, que era a mais radicalmente vulgar nesse sentido, mais radicalmente vulgarizada pelos meios de comunicação.

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