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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 15/19

Desde a bossa nova tomei a atitude de João

Bondinho – O encontro com João Gilberto, o negócio de você vir aqui, cantar com João…
Caetano – Meu encontro com João foi uma coisa da mais profunda importância pra mim, porque… eu creio que deva ser pra quem quer que encontre com ele, que tenha algum tempo com ele, porque João… João é uma viagem. Ouvir ele cantar de perto, ouvir ele falar sobre cantar, ouvir ele falar sobre tudo, é como viver milhares de coisas ao mesmo tempo, porque ele é genuinamente um grande artista, entende? Ele é um grande artista… Na verdade, desde o aparecimento da bossa nova tomei a atitude de João como exemplo, entendeu? Não gostava muito de nada, só gostava do João Gilberto. Quer dizer, Tom eu achava genial, acho até hoje. Carlinhos Lyra, acho té hoje um dos maiores compositores também, muito bom, tudo o que ele faz é extremamente bem feito. Depois do Tom ele foi o melhor, o Carlinhos Lyra. Mas isso era a primeira fase da bossa nova. Na segunda fase, a fase do Edu, o aparecimento de Elis, por um lado, por outro Nara Leão, com as coisas mais assim ligadas aos temas de tomada de consciência do povo brasileiro. As coisas do Baden Powell, com Vinicius, inclusive, na fase do samba afro-baiano, também antes aquelas coisas tipo de samba de carnaval, de morro, tudo isso me parecia coisa menor, e eu tava tão interessado no João, que dizia “nada é realmente uma coisa muito boa”. Tinha simpatia por tudo, mas não reconhecia em nada uma grandeza. Tomei o negócio do João Gilberto como um exemplo, essa coisa da radicalidade. Mas é claro que não tenho a capacidade de rigor que o João tem. Talvez eu seja rigoroso, mas o meu negócio é em outro plano. De qualquer maneira, eu sou radical.

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