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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 14/19

Na Bahia não tem nenhum psicanalista

Bondinho – É engraçado a volta da coisa: na época do tropicalismo houve muita preocupação com a palavra importação: o debate todo era em torno da “importação”. Hoje as coisas se modificam. Fala-se muito do regionalismo tal e tal e se descobrem coisas dentro do Brasil. Quase uma virada completa de posição, não?
Caetano – Talvez, eu não sei bem não. Porque há duas coisas aí. Uma é a seguinte: as capitais dos estados brasileiros parecem ter hoje a necessidade por causa da condição econômica a que chegaram, de uma vida cultural local não provinciana. A outra coisa é que há uma cultura urbana no Brasil que é o rádio, a televisão, a imprensa, livros, produções de cinema, tudo centrado há muito anos no Rio e em São Paulo por condições econômicas. Mas hoje as condições econômicas de outros lugares estão permitindo que uma necessidade de criatividade local apareça, tá entendendo? Sem dúvida há uma cultura urbana no Brasil que não se quer mais provinciana. Ela quer existir no mundo, sabe como é? Agora, há sempre o sonho, a necessidade de se ter uma intuição sintética do Brasil pra saber o que é que o Brasil vai dizer ao mundo e daí já é uma coisa nacional, uma forma de nacionalismo e isso também é outro problema. É complicado, quer dizer, a gente vai ultrapassando esse negócio dentro da gente, mas é uma coisa de uma complexidade enorme, não é? Esses problemas a gente não pode nem sonhar em encerrar a discussão, quer dizer, a conversa de todos nós no Brasil deve ser mesmo uma conversa de quem espera. Mas tudo é complicadíssimo, porque também tem o cara que não tem que responder por um país, por uma região, entendeu? O cara pode tá numa de milênios, pode tá numa perspectiva que não seja da história, que não precise reconhecer os problemas de nacionalidade, nada disso, entendeu? Sabe que esse negócio de arte… tudo é possível, sabe? Tudo… tudo pode pintar. De modo que pode ser uma cara que encontra coisas no mundo, não é necessariamente comprometido com … enfim, não quero dizer mais nada, era isso mesmo. Eu poderia vir morar no Rio, mas não tenho muita vontade, não. A única coisa que eu tava pensando em vir pro Rio é porque eu tava fazendo psicanálise em Londres, e tenho vontade de continuar, e na Bahia não tem psicanalista, tá entendendo? Até o João Gilberto fala com muito orgulho disso, dá risada disso, na Bahia não tem nenhum psicanalista. Morre de rir com o orgulho dele, como a dizer assim: “não precisa”. Mas eu tava em Londres, procurei o analista, e tal, e achei um negócio espetacular. E agora tô com vontade de continuar e talvez até venha morar no Rio por algum tempo por causa disso. Mas até agora não decidi fazer isso, porque tenho impressão até de que basta ficar na Bahia, ah, ah…
Bondinho – Sua visão de psicanálise qual é? É boa, você acredita…
Caetano – Ah, eu achei legal, achei muito bacana quando eu tava fazendo. Não quero discutir negócio de psicanálise, se deve fazer, se não deve fazer. O negócio é que pra mim foi bacana, eu tava muito apavorado e daí procurei um psicanalista e tava sendo legal. Aliás, sempre tive interesse mesmo quando morava na Bahia, desde rapazinho, eu tive interesse em psicanálise. Nessa época era mais curiosidade do que necessidade, mas em Londres se tornou necessidade,e e eu fui lá, né? Agora, pra mim é praticamente impossível dizer o que é minha experiência com psicanálise. Porque a impressão que eu fico é que a gente não sabe de nada. Na análise tive impressão de que não sabia de nada, nada. Eu não sabia o que estava se passando, mas eu via que as coisas tavam se passando… Eu não sei dizer quais, nem como, entende? E é legal, porque aí você vai sentindo as cosias legais, vendo coisas legais, sei lá… Pode ser legal prum cara.
Bondinho – Mas você acha que de alguma forma ela já tem alguma relação com atitudes suas?
Caetano – Ah, eu acho que mudei muita coisa pelo fato de estar fazendo psicanálise… Eu acho.

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