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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 13/19

É também um privilégio não ter raízes

Bondinho – Agora, você entende as suas coisas sem a Bahia, sem a sua existência, a sua formação baiana?
Caetano – Não, de jeito nenhum. Mas isso é muito complicado, porque não tenho nenhum interesse em regionalismo, tá entendendo? Eu tô ligado com a Bahia concretamente e só sai no meu trabalho essa ligação na medida em que ela é efetiva… não como um compromisso de representar uma região. Porque aí voltaria o concurso de Miss Brasil, tá entendendo? Era preciso que fosse uma descentralização conjugada com uma desprovincianiação. Agora, você tá querendo que eu fale mais da importância de eu ter nascido na Bahia no negócio do meu trabalho, né?
Bondinho – Toda essa repercussão concreta no seu trabalho.
Caetano – Só é difícil falar porque não há outra experiência pra comparar, o que aconteceu comigo é o que aconteceu comigo, tá entendendo? Há coisas que são assim necessariamente porque eu sou baiano, mas você pode transar altíssimo a partir de qualquer coisa, eu acho. Por isso eu tava falando que me sinto um pouco mal quando se fala em ser baiano como privilégio, isso colocaria uma nova centralização desagradável, entendeu? A idéia de privilégio é uma coisa que não me interessa. Privilégio de ter nascido na Bahia, ter vivido tais e tais coisas. Eu não vejo muito isso. Por exemplo, quando fui pra São Paulo eu… é claro que São Paulo é uma cidade muito difícil, é uma cidade dura, difícil de você suportar, mas eu ficava fascinado com a completa falta de raiz que encontrava nas pessoas que conversavam, que transavam comigo. É maravilhoso. É também um privilégio não ter raízes, não ser de um lugar que tenha uma vida cultural popular muito organizada… se se pode dizer assim, entende? Com a Bahia de certa forma tem. Mas eu tava falando desse negócio de centralização e tem coisa acontecendo… Por exemplo, no Recife, Gil viu agora coisas incríveis. Um grupo chamado acho que Quinteto Violado ou Quarteto Violado, não sei, que é uma coisa extraordinária. E era muito bom falar nisso, saber que existe, porque tem milhares de coisas pintando por aí. No Recife tem também uma coisa chamada Harmorial, um grupo muito bom também. Pessoas incríveis, tem um cara chamado Chico Soares, o Canhoto, que toca violão, é espetacular. O Paulinho da Viola até dedicou uma música a ele. E fora toda a coisa popular que tem aí. Milhares de caras incríveis. Isso Gil e Capinam tão sabendo muito bem.

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