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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 12/19

A América toda é uma cafonada de cima a baixo

Bondinho – O Rio sempre comandou a criação brasileira mesmo do ponto de vista da importação dessa criação nascida em outros estados. Era um negócio centrado. Mas hoje imagino que esteja havendo uma descentralização. As criações regionais, sejam baianas, sejam mineira… como é que você vê?
Caetano – Olha, vou começar falando da Bahia, porque é o que mais sei, eu sou de lá… Tem o seguinte: há um número muito grande de bons artistas, na música ou nas outras áreas, que são baianos. Por outro lado, a Bahia foi a primeira capital e tem ainda hoje vários bairros onde a arquitetura é interessantíssima, e é uma cidade com maioria de negros no Brasil, é uma cidade basicamente negra, a gente pode dizer. Então, é uma cidade que desperta sempre… por exemplo, no tempo do teatro de revista todo show tinha que terminar com uma homenagem à Bahia. As escolas de samba volta e meia desfilam com um enredo sendo Bahia, e há milhões de músicas feitas sobre a Bahia, e há todo um mistério, um mito e um folclore em torno da Bahia, porque a Bahia ficou sendo como uma raiz, como sendo um lugar…, onde o Brasil é mais profundo, essa coisa toda. Por causa desses elementos e da mitificação que esses elementos receberam, não é? Então, num país basicamente sem raízes, se você for comparar qualquer país da América com os países europeus ou com países africanos, você vai notar que a América toda é uma cafonada de cima a baixo, ou seja, é um continente sem passado, né? O passado americano resume-se no aniquilamento das nações indígenas, né? Claro que também no que veio depois disso, ou seja, na colonização européia, inglesa, espanhola, francesa, holandesa ou portuguesa, e na importação de escravos e este detalhe é da maior importância neste nosso continente. Então, você… eu tô falando como se soubesse, meio professoralmente, mas não é isso… São coisas que passam na minha cabeça e eu vou falando… Você tem a permanência de uma língua européia, uma continuação, mas já em outras condições que as de uma cultura européia, entendeu? Então isso dá uma bagunça danada, você tem ao mesmo tempo fossas, o americano tem fossas, o americano todo ele, do Canadá até a Patagônia, fossas por falta de raízes, fossas de importação, necessidade de afirmar o caráter nacional artificialmente, coisa que não acontece na Europa, tá entendendo? Quer dizer, isso é uma visão que eu tenho. Sei pouco de história, mas é o que sinto nas coisas de agora, talvez nem seja isso historicamente, mas é uma maneira de dizer o que vejo atualmente. Então, a Bahia, no Brasil, tem feito um pouco esse papel de mito de raiz, tá entendendo? Eu não quero desmentir não, acho que a Bahia tem força, é um lugar incrível… o reconcavo baiano é um negócio maravilhoso, mas tenho uma distorção muito grande pra falar porque eu sou de lá. Por um lado tô mais apto a falar porque vivi todo o tempo lá, mas por outro sei que é uma visão distorcida, porque estou profundamente ligado ao lugar. Mas tenho maturidade bastante pra saber que não interessa pra gente… ultimamente vem se falando muito aqui no Sul que a Bahia tem tudo concentrado, que a Bahia é que vai dizer as coisas, que da Bahia que sai tudo, não-sei-o-quê. Isso me faz um pouco mal, porque eu tenho muito mais interesse numa coisa a que você se referiu aí na pergunta, que é a descentralização entendeu? Eu fico alegre que algumas coisas aconteçam na Bahia; por exemplo, vejo um jornal como o Verbo, morro de alegria, acho maravilhoso. É um jornal que tem o gosto de província, mas tem a capacidade de ser interessante em qualquer lugar do país, tem uma vocação para o amadurecimento, a criatividade… de qualquer maneira é uma coisa viva, uma coisa pintando, e tá pintando na Bahia, sacumé? Outro dia vieram uns caras de Brasília, lá em casa, com um jornal chamado… puxa, me esqueci o nome do jornal… “um jornalzinho de Brasília, um negócio assim…” fico contente vendo coisas acontecendo em outros lugares. Mas o que eu quero dizer é o seguinte: existe realmente um hábito de centrar a cultura brasileira, mesmo quando isso não é verdade, no Rio de Janeiro, tá entendendo? E tenho quase como um dogma que a descentralização é sempre melhor. O Rio centrou uma certa forma a vida cultural do país durante muito tempo, mas inegável que São Paulo, todas as vezes que se manifestou, o fez de maneira mais radical. Agora, é preciso que isso não vire Fla-Flu regional também, entendeu?
Bondinho – … num Campeonato Nacional…
Caetano – Isso, num Campeonato Nacional de criatividade e de cultura, porque o país é muito grande, os estados são muitos distantes, há muita terra vazia entre uma cidade e outra, muito campo não arado, muita terra seca, muita floresta também, muito pântano; então vai ficar um grupinho de uma cidade dizendo “olha, nós somos os mais inteligentes e criativos” e o outro respondendo, e isso não interessa, não interessa o Campeonato Nacional.
Bondinho – É a grande vocação para o futebol…
Caetano – É, eu acho ótimo, contanto que essa vocação para o futebol se exerça no futebol mesmo. Então, eu tenho interesse pela descentralização, acho mais saudável, mais democrático. Mas a gente tem que entender também que essa descentralização só é possível mediante condições econômicas dadas. Sei que é possível uma cidade produzir maior número de pessoas criativas, etc., por causa de sua formação cultural, sua tradição, por causa de vários elementos que possam estar em jogo. Mas essa cidade só permitirá uma verdadeira produtividade se tiver um nível econômico razoável. Tenho a impressão de que essa descentralização cultural depende de coisas muito maiores que essas discussõezinhas, aliás simples e nada perigosas, da área cultural. Entendeu? E quero dizer que tenho interesse pela descentralização, mas não tenho muito interesse em discutir esse problema da criatividade. Das criatividades regionais, ou seja, digamos que em Curitiba surja um grupo de contistas, em Porto Alegre um grupo de psicanalistas fazendo uma pesquisa importantíssima internacionalmente. Sabe como é? Qualquer coisa que aconteça em diversos lugares do Brasil é bacana, mas tudo isso depende da economia desses lugares. Eu não gostaria de discutir isso na área cultura porque correria o perigo de cair no campeonato que a gente tava falando, né? Por outro lado, ia ficar uma discussão leve e superficial, quando isso depende de coisas mais pesadas, ou seja, da maneira como a economia do país se comporta, das regiões etc. E é uma discussão em que a gente não pode entrar, pois não tá tecnicamente informado pra entrar, tá entendendo? É uma discussão de economistas, de planificadores, e ninguém aqui vai querer se arvorar a dar conselhos de planificação de um país imenso como esse, tá entendendo? E como vai depender de tudo isso, e a gente sabe qual o preço dessas coisas… por exemplo, na Bahia, é lindo que agora haja a possibilidade de ser aberto um estúdio de oito canais de gravação, pra que as coisas sejam feitas diretamente lá, entendeu? Porque há uma ciratividade muito grande, uma porção de gente fazendo coisas, uma série de coisas interessantes para serem gravadas, gente querendo trabalhar. Se for possível fazer um disco de Salvador, eu prefiro, claro. Então, tudo isso é permitido por causa de uma industrialização que a cidade, a região do recôncavo, tão sofrendo. Eu sei o preço disso, tá entendendo? Sei como uma cidade se transforma por causa disso, como as próprias famosas forças culturais da cidade são ameaçadas por essas coisas e eu não sei como resolver isso, entendeu? Não tenho nenhuma solução pra isso, não entendo mesmo, é impossível.

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