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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 11/19

Fui mais influenciado por Glauber do que por Beatles

Bondinho – Como se relacionaria o trabalho de vocês, na época, com o deles – identificação, influência, eram trabalhos paralelos ou o quê?
Caetano – O fato deles terem despertado nosso interesse pra determinadas coisas deve ter, sem dúvida nenhuma, influenciado nosso trabalho, ajudado a gente a descobrir novas maneiras de colocar as formas que a gente tava querendo colocar. De uma forma ou de outra, com a experiência que eles tinham, eles nos clarearam o caminho e o trabalho deles nos liberou a imaginação pra determinados jogos formais que talvez não tivéssemos ousado. Mas a gente nunca perdeu a consciência de que são campos diferentes. A gente trabalha numa área de consumo, faz discos, não tem o trabalho concentrado de quem faz literatura, teatro. De certa forma, muito do que a gente fez antes de conhecê-los já era resultado de coisas que, gente como eles, eles próprios, tinham feito, né? Indiretamente. Porque, diretamente, profundamente influenciado, toda aquela coisa de tropicália se formulou dentro de mim, no dia em que eu vi Terra em transe. Isso eu já tenho dito, mas não me lembro de ter lido. E também o cinema de Godard me despertou um interesse muito grande, me influenciou muito, mais do que Bob Dylan, mais do que os Beatles. Eu fui mais influenciado por Glauber e por Godard do que por Bob Dylan e os Beatles. E ainda mais pelos Beatles do que Bob Dylan.
Bondinho – Essa afinidade com Godard, Glauber, como você localiza hoje – era mais porque amava formas?
Caetano – Não, Terra em transe foi um detalhe muito importante num momento determinado da minha vida. Foi fundamental, numa época que com relação à música brasileira eu tava predisposto a encontrar uma coisa que dissesse o que aquele filme dizia, como aquele filme dizia pra fazer um negócio arrebentar dentro de mim. Então, foi um momento o meu encontro com aquele filme, o filme foi como um catalisador de uma série de coisas que tavam no ar pra mim, que me angustiavam, que eu não sentia a maneira de fazer sair, e ele sentia a maneira de fazer sair, e ele me deu a chave, tá entendendo? Foi mais uma questão de solução geral para a minha criação do que influência pela forma. Eu quero dizer o seguinte: não é que o filme me ensinou estilisticamente, é que o filme me revelou, me iluminou, enquanto que o Godard foi ensinamento estilístico, um gosto de ver um estilo que você aprende a transar com ele. E daí, isso ficou pra mim marcado no meu gosto estético e veio a participar do meu processo de criação, entendeu?

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