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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

parte 10/19

Sensibilidade, eu tenho de sobra, sou uma moça

Bondinho – Já que tamos nessa área, queria sua visão do chamado encontro com os concretistas de São Paulo. A ligação que você teve com a poesia, Haroldo de Campos, naquela época.
Caetano – Eu não conhecia a poesia concreta, nem as pessoas que faziam e pra dizer a verdade não sabia nem o nome deles. Me lembrava do nome Décio Pignatari, ouvia falar muito mal dele quando fui a primeira vez pra São Paulo. Mas não sabia nem quem era; não leio muito, não leio quase nada, e quando teve aquele negócio de tropicalismo, “Alegria, alegria” e “Domingo no parque”, vi na casa de Capinam um livro de Sousândrade. Capinam dizia assim: “Rapaz, tô impressionado com isto aqui, que esses irmãos Campos de São Paulo descobriram essa poesia, fizeram um levantamento, eles estão fazendo um trabalho muito bom de redescoberta de poetas”… Isso antes do tropicalismo. Mas eu nem guardei. Quando foi aquele festival que teve “Alegria, alegria” e “Domingo no parque”, Augusto de Campos me procurou. Queria me conhecer, conversar comigo, e eu disse “legal, bacana”. Até me explicaram melhor quem era, eu já sabia que existia poesia concreta, mas nunca tinha visto e não conhecia o negócio deles. Então saí com Augusto, ele começou a falar todo o tempo sobre Lupicínio Rodrigues e depois disse que tinha feito um artigo sobre mim. Aí lembrei que tinha lido o artigo no Correio da Manhã, um artigo muito longo chamado “Boa palavra na música brasileira”, onde ele falava nas minhas músicas, que eu parecia ter uma visão mais lúcida e radical da música popular brasileira naquele momento. Ele me deu umas revistas Invenção, então fiquei vendo o que eles faziam. Achei maravilhoso! Fiquei interessadíssimo e depois comecei a relembrar o tipo de piche que ouvia a respeito deles, e comecei a ver a situação deles dentro da literatura brasileira. Augusto tinha falado, nesse dia, que sentia muita afinidade com o nosso trabalho, tanto ele como todo o pessoal da poesia concreta. Ele queria dizer que os nossos trabalhos eram afins, porque tínhamos tomado uma atitude radical, eles também, e como ele gostava muito de música, queria falar sobre isso. Então fiquei lendo alguma coisa que ele me deu de presente, livros de poesia, coisas de Ezra Pound, de Maiakovski que eles tinham traduzido, me deu “Panaroma”, “Finnegans wake”. Daí li “Ulisses”, li muito mal, porque é muito grande, muito difícil, mas adorei, achei maravilhoso, porque tem aquele negócio das palavras, e aquelas formas… E, principalmente, tinha estreado também o espetáculo do Zé Celso, O rei da vela, de Oswald de Andrade. E eu fiquei profundamente interessado, eu não conhecia nada de Oswald de Andrade. E o Augusto, o Haroldo, principalmente, que estava fazendo um levantamento, uma redescoberta de Oswald, estava batalhando nesse sentido. Então, quando falei que O rei da vela tinha me impressionado muito, que queria ver o negócio do Oswald, eles me deram livros de Oswald e o artigo do Décio sobre o Oswald, e o negócio do Haroldo sobre Oswald, e as coisas e a poesia. Então, ficamos amigos. E eu tenho o maior respeito por eles. Acho que o Brasil tem um grande problema na área cultural, não tenho autoridade pra falar, eles teriam mais autoridade. Enfim, acho que no Brasil há um grande problema com relação à criação cultural, por causa do subdesenvolvimento. Os problemas criados para os concretos, seja de publicação, seja a reação crítica que encontraram e encontram até hoje, são um negócio sinistro, entende? Uma antipatia e um desprezo pelo que eles fazem, um negócio abominável, um negócio de fraqueza, do que o Décio chama mesmo de “geléia geral”. É o seguinte: você imagine que esses caras fizeram um trabalho com precisão, estudaram, traduziram, tiveram o cuidado, é um trabalho que deve despertar, no mínimo, o interesse para quem queira estudar, entendeu? Quem queira se interessar, saber literatura…
Bondinho – … pra quem queira saber sobre informação, que traz o trabalho, né?
Caetano – Claro, porque eles são muito claros nesse ponto, quer dizer, quando as pessoas reagem a eles, só posso entender que seja por medo. Porque é o cúmulo que ainda hoje se façam essas coisas, né? Que as pessoas… briguem com os concretos, por eles fazerem uma experiência como fazem. Tenho a impressão de que há um medo da lucidez crítica que eles têm, entendeu? Eu dei uma entrevista pro Pasquim, quando vim no outro ano, e eles perguntaram também sobre meu encontro com o pessoal da poesia concreta. Acho muito chato esse negócio no Brasil de tudo virar um grupo, cê tá entendendo? Tudo vira Fla x Flu… Então, você…
Bondinho – … escolhe o time…
Caetano – É, escolhe o time. Não se trata disso, tá entendendo? Não conhecia os caras, e tudo que eles me mostraram era legal, e eles são corretíssimos, tá entendendo? Escrevem bem demais, tá entendendo? A experiência deles é muito profunda. Agora, no Brasil, fica o problema do nível somente. Eu não tenho autoridade, não tenho conhecimento de literatura, pra dizer que a linha que eles escolheram, a posição crítica deles é a única possível, e que eu sou contra todo mundo que não tem o mesmo tipo de pensamento… O que eu quero dizer, apenas, é que o que eles se propõem a fazer, fazem com muita precisão, muita clareza. Então deviam encontrar também respostas claras. O que me faz desconfiar das pessoas que evitam, ou fingem ignorar, ou botam uma cortina de silêncio em torno, menosprezam ou ironizam o trabalho dos concretos, o que me faz desconfiar dessas pessoas é o fato de jamais trazerem, nas respostas que tentam, nem um décimo da clareza com que os concretos se expressam, cê tá entendendo? Eu gostaria que houvesse respostas claras, que a discussão fosse ao mesmo nível.
Bondinho – Ao nível do trabalho sério.
Caetano – Claro, que a discussão fosse ao mesmo nível. Eu conheço certas coisas, eu intuo certas coisas na cultura brasileira que, pelo pouco que eu conheço da formulação teórica dos concretos, realmente dá pra balançar a estrutura da formulação deles, cê tá entendendo? Acho que há certas coisas dentro de mim mesmo pondo a opinião deles em discussão. Pra mim. Entendeu? Mas eles próprios têm sido muito mais capazes de delimitar a área em que são eficazes do que aqueles que são os seus críticos, tá entendendo? Eles mesmos têm demonstrado maior consciência dos próprios limites do que as pessoas que tentam criticá-los. Tudo isso veio com muita clareza e ninguém vai querer me engambelar com esse charmezinho brasileiro, de sensibilidade, de não-sei-o-quê, tá entendendo? Sensibilidade eu tenho de sobra, eu sou uma moça.

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