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Entrevistas de música brasileira

Caetano Veloso

Caetano Veloso na revista Bondinho. Foto: Walter Firmo

Caetano Veloso

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Visto?

Não, o Gafieiras não entrevistou Caetano. Gostaríamos, afinal ele gosta de falar e a gente de escutar (e falar também, só que menos), mas vocês sabem como é essa história de grandes figuras e pequenos meios de comunicação. Não há de ser nada. A gente ainda se tromba por aí. Por outro lado, este Caetano que vocês lerão também não é o que acaba de se lançar no vasto oceano do cancioneiro norte-americano. É um outro, de uma outra época.

Este outro Caetano estava chegando ao Brasil, em 1972, com os nervos em frangalhos depois de cerca de dois anos de exílio em Londres, junto com o amigo Gil e suas respectivas mulheres, as irmãs Dedé e Sandra Gadelha. O baiano vinha de seu segundo disco londrino, o intenso e irrequieto Transa, e estava prestes a cair no experimentalismo total, já no Brasil, de Araçá azul. Provavelmente não foi a primeira entrevista que Caetano deu após sua chegada, mas certamente foi a maior. Quem conduziu o bate-papo/desabafo foi o jornalista Hamilton Almeida para a Revista Bondinho.

Esta publicação – símbolo de vanguardismo jornalístico no começo dos anos de 1970 – foi comprada em um sebo do centro de São Paulo por apenas cinco reais. Estava lá, deitada, ao lado de uma pilha de parentes quebradiços. No Gafieiras, o espanto que causou foi unânime. Tanto por seu conteúdo – este número ainda contém entrevistas com Luiz Gonzaga, Batatinha e com o diretor de teatro Victor Garcia – quanto por sua irreverente concepção gráfica.

Depois soubemos que a Bondinho – surgida como uma publicação da cadeia de supermercados Pão de Açúcar – teve uma vida tão breve quanto revolucionária. A intenção original era fazer uma revista como a Rolling Stone para falar de contracultura e de outras bossas, mas a falta de anunciantes minou os esforços da equipe editorial, que trazia entre seus editores-chefe Mylton Severiano e na editoria de fotografia, Cláudia Andujar. Walter Firmo assina o incrível retrato de Caetano na capa.

Mas por que republicar uma entrevista realizada em 1972 de um artista tão exposto e bem posicionado na imprensa quanto Caê?

Capa e contracapa da inovadora revista O Bondinho. Foto: reprodução

Espelhar dois momentos tão curiosos e contundentes de um mesmo protagonista parecia ser a justificativa para essa reprodução. O primeiro, pela pena do Bondinho, revelou como a cabeça e o coração do baiano giravam como uma metranca do Giuliano Gema. No pente, grilos de um artista com 29 anos que ruminava seu entendimento de cultura brasileira e o relacionava com o pop, com o cinema de Glauber e de Godard, com a poesia concreta e com a música popular. Parte dessa digestão foi vomitada nos álbuns subsequentes. Três décadas depois, essa metralhadora continua soando, mas agora seus projéteis correm para outros lados. Com o recém-lançado A foreign sound, Caê externaliza sua admiração pela cultura do país que lhe recebeu em abril passado para uma série de shows no Carnegie Hall. País também que, por conta dessa oportunidade, lhe negou o visto “O-1”, emitido somente para figuraças de “reconhecido talento”. E tudo porque o filho de Dona Canô havia dito que Osama Bin Laden, o líder do Al-Qaeda, era bonitão.

Idas e vindas, discursos de hoje e de um outro tempo, contrapontos, congruências e divergências… Histórias para pensar a cultura brasileira, do que a cerca, de como ela se movimenta, se transforma… E, mais do que esse retrato bipolar do entrevistado, o Gafieiras solta foguetes para uma das revistas mais criativas dos anos de 1970, e que grande parte da rapaziada nunca ouviu falar.

Vamos lá.

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