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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 8/34

Com 17 anos eu comecei a organizar concertos

Tacioli – Pra mim é uma surpresa a sua trajetória.
Max Eluard – Essa sua faceta rock and roll.
Dafne – E também por começar a tocar com piano, que não é um instrumento fácil assim, aos 18 anos de idade.
Taubkin – Foi muito curioso esse meu desejo – queria muito tocar piano – e aí uma amiga me deu um piano. Quero dizer, ela me vendeu por um preço simbólico, uns quinhentos reais. Ela sabia desse meu desejo e deu uma força. Bom, então fiquei com um piano na casa onde fui morar. Era uma casa muito bacana na Rua Iguatemi. Metade da casa ainda existe, a outra metade se foi. O fundo da casa virou um bar. (Fica) perto da Cidade Jardim. E ali foi uma experiência mágica; tinha 18 anos. E tem outro lado da minha vida profissional que a gente não falou: com 17 anos comecei a organizar concertos. Então, já tinha esse lado forte com a música e da música que viria a fazer, que era a música instrumental brasileira. Mas fui morar nessa casa, que tinha uma sala que era o dobro dessa (sala)… Eram duas casas desse tamanho por um preço muito barato, porque estava pra desapropriar a Iguatemi já naquela época, 1975, 1976. Acabaram não desapropriando, mas o aluguel valia pouco. Então foi ali que consegui morar. Bom, sentei ao piano pra tocar, vi que precisava de um professor e quis ter aula. Então fui procurar professores de música erudita, porque eu queria aprender técnica direito. Eu queria ter uma formação sólida, estava interessado nisso. E, surpreendentemente, ninguém quis me dar aula. Eles não queriam me dar aula porque, começando aos 18 anos, não tinha leitura, não queriam. Eles falavam: “Não vai dar. No máximo vai ser o hobby”. Um falava: “Ah, tenha aula com minha assistente”. Aquilo pra mim era desestimulante. Cheguei a ter aula com um professor que ele não ia à aula. Sabe, imagino que ele achava muito desinteressante dar aula pra alguém que acreditava que não iria tocar. Aí fui tentar ter aula popular, e aí também não deu certo. Além de eu achar aquilo tudo muito formatadinho, tinha já uns pré-julgamentos que faziam mal, como “Bom, você está começando agora. Então, não sonhe muito”. Um tinha um negócio que chamava “Teste de talento”. É uma das coisas mais bárbaras que já vi na minha vida. Mas ele tinha um teste de talento americano. Aí vi que não estava acontecendo muita coisa e percebi que eu não me via não tocando piano. Você vê o que você quer fazer. Eu sabia o que eu não queria; aí foi que eu me defrontei com aquilo que de fato eu queria. E não estava sendo tranqüilo nesse sentido, porque as pessoas não estavam me estimulando. Aí eu mergulhei sozinho. “Bom, não vou ter aula com ninguém e vou mergulhar.” E mergulhei. Comecei a tocar, tocar, tocar…
Max Eluard – Autodidata.
Dafne – Com algumas…
Taubkin – Sem método, nada, nada, nada. Mas tive uma sorte. Eu me mudei com a minha irmã e mais um amigo; três pessoas, para essa casa que tinha uma sala grande e cinco quartos. Pouco a pouco começou ir morar um monte de gente e a casa virou uma espécie de comunidade. Chegaram a morar 13, 14 pessoas.
Tacioli – Os Novos Baianos! [ risos ]
Taubkin – Era uma coisa assim. Você sabe que era tão agradável lá – era numa vila – que, às vezes passava duas semanas sem sair. Ia somente até a esquina e voltava. As janelas ficavam abertas o dia inteiro dando pra uma vila. E a decoração da sala era um piano de armário, não de cauda, um baixo acústico e uma bateria. E morava um baixista e um baterista. Além de serem mais velhos do que eu e já músicos profissionais, especialmente o baixista que tocava muito por aí, e também pelo fato de eu fazer projetos de concertos, a casa virou um ponto de encontro. Era uma casa que tinha 15, 20 músicos por dia. Então eu via as pessoas tocando e isso me ajudou muito, entendeu? Eu via o cara tocar do meu lado; eu elegia quem eu gostava e quem eu não gostava. Claro que os caras me davam uns alôs, “Experimenta fazer isso! Não faz isso”. Não tive aula com ninguém, tive toques.
Dafne – Os músicos que não são professores não dão aula, eles tocam, né?
Taubkin – Isso, mas tinha muita vivência. E tinha uma coisa do lado filosófico de fazer música que foi muito importante. Por exemplo, quando você vai à uma escola ou universidade estudar música esse aspecto do que é ser músico, do que é a música, por que se faz música, em geral não é abordado. São abordados os aspectos técnicos, melódicos, estéticos até, mas não o que é fazer música de um ponto de vista mais filosófico. E isso faz muita falta; isso pode te ajudar a dar uma dimensão do que é fazer música e te encaminhar na própria música.

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