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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 7/34

Boate eu achava careta, mas ia ver show de rock

Tacioli – Você falou do piano, mas houve uma vontade de aprender outros instrumentos? Com essa sua formação de ouvinte da cultura pop, piano não é uma coisa que você leva nas costas pra tocar, não tem a mobilidade do violão, da guitarra…
Taubkin – Chegou a passar uma guitarra na minha mão, mas não tive nenhuma… E meu irmão chegou a ter um conjunto pop com os amigos dele; eu tinha 12, 13 anos. Ensaiavam em casa, no quarto dele. Era guitarra-solo, guitarra-base, bateria. The Kinks era o grupo que eles mais tocavam.
Tacioli – Qual era o nome do grupo?
Taubkin – Ah, nem lembro o nome, mas tiveram essa banda. Alguns deles depois fizeram parte desses movimentos que foram grupos cantando em inglês no Brasil, sabe? Lee Jackson… [ n.e.: Grupo paulistano formado por Luís Carlos Malully (voz e guitarra), Marcos (teclados), Sérgio Lopes (baixo) e Marco Aurélio (bateria), na mesma onda de artistas que fizeram sucesso entre 1973 e 78 cantando em inglês e usando pseudônimos como Mark Davis (Fábio Jr), Morris Albert (Maurício Alberto Kaisermann) e o grupo Pholhas ] Alguns passaram por essa experiência. Eu gostava do som do Led Zeppelin, do Cream e de todas essas bandas mas não queria tocar. Depois com o rock progressivo foi algo muito parecido; curti muito Yes, Genesis, Gentle Giant, que talvez tenha sido o grupo que eu mais curti nessa época. Jethro Tull e alguns outros grupos… Mas não era exatamente que quisesse tocar aquilo, não sei. Às vezes pegava o violão, fazia umas coisas, mas não ia muito além daquilo. De alguma forma, e não era uma questão pra mim, eu sentava ao piano e tocava, mas não era estimulado; meus pais olhavam com preocupação, porque, claro, eu não ia bem na escola e estava indo pro piano. Então, isso não era muito estimulado. [ ri ]
Tacioli – Se entorpecendo…
Taubkin – Tem uma coisa muito engraçada…
Dafne – Ia pra boate…
Taubkin – Não, boate, não! Gozado, boate eu achava careta, mas ia ver show de rock. Tinha aquela coisa do encontro com os amigos o tempo todo. Essa época era uma época muito de turma. Mas eu soube muito rápido o que eu não queria, e com muita clareza. Muitas vezes você vê o depoimento de pessoas que tiveram uma trajetória mais rebelde e depois falam: “Depois eu me assentei e aí revi e aí compreendi e babababa…” Eu não tive esse processo! Aquilo o que eu não queria, de fato eu não queria. E vejo hoje que não teria feito o menor sentido pra mim. Eu teria sido uma pessoa completamente infeliz e provavelmente incapaz. Aí fui descobrir o que eu queria. E o piano entrou na minha vida quando eu tinha 18, 19 anos. “Eu quero tocar piano e vou atrás disso!” E algumas escutas musicais me fizeram muito tocar piano. Um, sem dúvida, foi o Egberto (Gismonti), que conheci muito cedo, (logo) com o primeiro, segundo disco dele; fiquei muito encantado. O outro foi o Tom Jobim, especialmente o disco Matita perê (1973). Foi gozado quando há alguns anos me convidaram pra fazer “Crônica da Casa Assassinada” com orquestra no Jobim sinfônico [ n.e.: Disco duplo vencedor do Grammy Latino 2004 ] e essa foi uma das peças que me fez tocar piano. Então foi como se um ciclo completasse, porque ouvia isso e ficava louco querendo tocar. Isso eu quis tocar! Então comecei a ter muita atração pelo piano. E depois o jazz e tal. Aí entrei por outro caminho: não escutei mais rock, não me interessou mais…
Tacioli – Esse não-interesse aconteceu por quê?
Taubkin – Muito natural. É muito engraçado, não foi uma escolha consciente, “Vou deixar de ouvir isso”. Aquilo deixou de me interessar. Quando comecei a tocar mudou a minha visão de música. Aí outras coisas começaram a me interessar. Claro, quando meu filho (João Taubkin) entrou nessa fase dos 11, 12, 13 anos, comecei a escutar (rock) de novo. E aí tive muito prazer em escutar algumas coisas. Led Zeppelin, sem dúvida, foi uma delas. É uma banda muito boa. E outras coisas, como o Focus, que foi um grupo que eu ouvi com prazer. Ele chegou com AC/DC, com algumas dessas bandas, que era a coisa do meio dele na escola naquela época. Aí o vi escutando aquilo e falei: “Não sei, tenho impressão que Jimi Hendrix e Led Zeppelin são mais interessantes”. E eu não falava nada (nesse sentido), mas dizia… “João, escuta isso aqui”. Sempre tomei o maior cuidado pra deixar o processo… O João tem a natureza muito amiga, talvez até fizesse um sacrifício, e era isso que eu não queria. Queria que ele curtisse o que ele estava curtindo. Mas ele chegou a ter banda punk, por exemplo. E foi muito engraçado. [ risos ] A banda punk dele foi ótima porque chamava Pussy Planet.
Dafne – Pussy Planet?
Taubkin – Planeta Xoxota. [ risos ]
Dafne – Muito bom!
Taubkin – Eles tinham 12, 13 anos, e me lembro que fui assistir um show na escola. E a primeira música que eles tocaram já foi espetacular, não precisava mais nada. Era assim: [ canta e reproduz o som pesado da guitarra ] “Eu sou como eu sou / (tuntuntun) / E se você quiser saber como eu sou / (tuntuntun) / Vá se foder!” [ risos ] “Porra, tá bom.” E aí acabava o show – isso é uma coisa muito interessante dessa geração – e davam abraço na gente. Todos muito carinhosos! Eles não tinham nada de punk. Mas na hora da banda era barra pesada.

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