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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 5/34

Juscelino é um cara que dá saudades do que não vivi

Tacioli – Os seus pais esperavam o que de você, profissionalmente?
Taubkin – Sem dúvida, uma faculdade, uma profissão liberal, alguma coisa economicamente representativa.
Dafne – Mas nem que fosse músico erudito?
Taubkin – Aí teria que… Sabe quando você vai tendo o aval oficial?! Aos 13, o Zubin Mehta [ n.e.: Famoso maestro indiano (1936) ] fala que você é um gênio, ou aos 16, a Martha Argerich [ n.e.: Virtuosa pianista argentina (1941) ] liga em casa e diz que “Preciso conhecê-lo!”. Teria que ser algo assim pra ter peso. No meu caso, aconteceu uma coisa engraçada: eu tive essa experiência de começar ter essa outra visão, mas não via a mim mesmo como músico. Eu só fui mergulhar no piano quando saí de casa, porque a gente tinha o desejo de sair rapidamente de casa. Eram mundos muito contrastantes. Com anos vai ficando muito claro todos esses processos. Mas, de fato, tinha um mundo nascendo ali e tinha, por outro lado, um mundo com seus valores e expectativas. Se você olhar para o que está acontecendo na sociedade hoje, a desconstrução de tudo aquilo que as pessoas acreditavam, começando pela ciência, que era visto como algo que ia sanar todos os problemas da humanidade. “Isso não vai ser mais um problema, aquilo não vai ser mais um problema, vamos trabalhar menos”, que era visto como uma coisa incrível, a possibilidade das máquinas fazer o trabalho, substituir (o homem). Ninguém pensava no desemprego, ninguém pensava na…
Max Eluard – Que essa aceleração faria a gente trabalhar mais…
Taubkin – Menos pessoas vão trabalhar mais e outras pessoas não vão ter emprego. Toda essa visão existe quase uma ingênua crença no capitalismo no sentido de trazer bem-estar.
Max Eluard – Um espírito progressista que era da época.
Dafne – Todo mundo vai ter mais lazer…
Taubkin – Você imagina, foi pós-Guerra…
Max Eluard – Aí vem Juscelino, a euforia…
Taubkin – Exatamente. Eu tenho uma visão do Juscelino que passa por isso, mas talvez mais positiva. Juscelino é um cara que, pra mim, dá saudades do que eu não vivi, porque era uma pessoa que pensava o país.
Max Eluard – Tinha um projeto…
Taubkin – Pro país.
Max Eluard – Você pode até discutir se o projeto dele é bom ou ruim, se concorda ou não ideologicamente…
Taubkin – Exatamente! Desde que eu me entendo por gente eu vejo as pessoas falando delas na esfera pública e com projeto pessoal! Você não vê um projeto pro país! Você fala assim: “Educação vai ser isso! Saúde vai ser isso! Geração de emprego vai ser isso! Cultura vai ser isso!”. E as pessoas vão e discutem aquilo. E aí a pessoa pode defender suas idéias, mas há uma idéia. Hoje em dia você não tem isso.
Max Eluard – Só tem projeto de poder…
Taubkin – Isso, só tem projetos pessoais, me parece, ou de partidos.

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