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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 4/34

A primeira coisa que fez muito sentido foi Led Zeppelin e Cream

Dafne – Então, as primeiras noções musicais estavam ali na família, mas a sua mãe chegou a te ensinar de alguma forma?
Taubkin – Não, não. O ensino dela veio pela convivência. Teve uma experiência quando tinha 9, 10 anos de um professor de piano para os três filhos. E me lembro que já na segunda ou terceira aula o professor de piano pediu pros meus pais pra não dar aula pra mim porque ficava chutando o pé dele. Achava aquilo um saco e ficava meio assim, sabe? Então, nem tive aula. Isso foi a única aproximação organizada pelos meus pais para que estudasse. Teve outra, quando tinha 12 anos. O Tom Zé abriu uma escola de música aqui em São Paulo que se chamava Solfistebalacobaco, perto da Rua Augusta. Acho que ele abriu com um cara chamado Hermes Aquino, um músico do Rio Grande do Sul [ n.e.: Nascido em 1949, representante do tropicalismo gaúcho, parceiro de Tom Zé em “Você gosta?”; fez relativo sucesso nos anos 1960/70 e também é autor do sucesso “Nuvem passageira” ]. O Tom Zé havia acabado de ganhar festival com”São São Paulo” [ n.e.: Canção vencedora do IV Festival da TV Record, 1968 ]. Lembro que fui em duas aulas e não fui mais. A aula foi interessante.
Tacioli – Mas seus pais matricularam?
Taubkin – Meus pais me matricularam. Falei que gostaria de ir e eles me matricularam.
Tacioli – E não ficaram assustados com o nome do Tom Zé…?
Taubkin – Não, não… Eu tive uma relação bastante dúbia com tudo isso. Por exemplo: meu pai tinha essa coisa de viajar, todo ano eles saíam dois meses do país. Uma vez, meu pai foi pra Europa, pra Israel, e passou pelo Marrocos. Eu me lembro que ele trouxe – eu tinha 11 anos – o Álbum branco dos Beatles, o álbum branco dos Rolling Stones, que era o Beggars banquet (1968), e dois tamborzinhos do Marrocos. Ele não sabia o que ele tava fazendo. Tocava “Sympathy for the Devil”, dos Rolling Stones, e eu e meu irmão ficávamos tocando aquele tamborzinho até ele ir à loucura, coitado. Na verdade, havia um estímulo à cultura. Uma das experiências mais prazerosas do fim da infância e começo da adolescência – 11, 12, 13 anos -, era ir com meu pai em sebo. Como os preços eram baratos, eu ia a sebo e comprava 10, 15 livros de uma vez. Eu tinha essa paixão também; nessa época eu adorava livro. Depois uma coisa muito interessante foi eventualmente, por exemplo, a chegada dos aparelhos. Então chegou o gravador de rolo, que ele trouxe de uma viagem. Então eu me lembro que tinha uma mesa, dessa central, mais baixa, na biblioteca do meu pai, e todos (estavam) em volta. E ele trouxe duas fitas, Porgy and Bess [ n.e.: Ópera jazzística de George Gershwin, Ira Gershwin e DuBose Heyward, 1935 ] e o West Side story [ n.e.: Com letra de Stephen Sondheim, música de Leonard Bernstein e texto de Arthur Laurents, o musical foi um marco da Broadway, foi para os cinemas em 1961 como Amor sublime amor, e é uma adaptação de Romeu e Julieta, de William Shakespeare ], e a gente ouviu isso durante noites e noites, noites e noites. E ele relatava as histórias pra gente, porque eram somente as músicas. Um era uma peça de teatro, e o outro era uma peça que virou um filme. E a gente curtiu tudo isso. Esse era um lado. Depois aconteceu uma coisa não tão comum pra alguém nessa idade: a gente ia muito a show de música. Sei lá, com 12, 13, 14, 15 anos eu vi muita coisa: Ravi Shankar, Bill Evans, Miles Davis, James Brown, Four Tops, Miriam Makeba.
Tacioli – Levados pelo pai?
Taubkin – Levados pelos pais.
Dafne – Aqui em São Paulo?
Taubkin – Aqui em São Paulo. Lembro quando ouvi o Ravi Shankar – eu devia ter uns 14 anos – e não entendi absolutamente nada. Aquilo foi deixando de fazer sentido de um jeito, mas estava lá, estava tendo essa experiência. Era muito abstrato.
Tacioli – Mas como os seus amigos te viam?
Taubkin – Era uma coisa interessante. É gozado isso, porque você é formado num meio, depois tem a sua experiência pessoal, individual. Talvez, a primeira coisa que fez muito sentido pra mim foi Led Zeppelin e Cream. Dois grupos que fizeram muito sentido. Ouvi e chapei, chapei! “Meus Deus do céu, o que é isso?”. Então era uma direção um pouco diferente da direção da minha casa. E aí me lembro que assisti o Woodstock de novo e chapei. Eu tinha 13 anos e me senti muito identificado com tudo aquilo. Foi um marco pra mim ver aquilo, entender o que tava acontecendo no mundo, todas essas questões. É a coisa do dúbio, de alguma forma eu me identifiquei muito com essa questão da contracultura, bastante, pra mim fez muito sentido e, de alguma forma, comecei a me afastar desses valores, que seriam os valores harmônicos, digamos, das expectativas que um pai, naqueles anos, poderia ter. E como eu, metade das pessoas que tinham a minha idade; acho que foi de fato um movimento.

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