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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 3/34

Minha mãe cantava canções russas, polonesas e folclore brasileiro

Tacioli – Os seus pais, o que faziam?
Taubkin – Meu pai era advogado. Ele já faleceu. Meu pai era uma figura. Ele nasceu na Rússia e era bem mais velho… Sou filho de um segundo casamento. Então ele já tinha certa idade quando nasci, uma idade próxima da que tenho hoje. Ele nasceu em 1910 na Rússia, e em 1917 houve a Revolução (Russa). Então, em 1919, foi com a família para a Lituânia, onde viveu por 10 anos e aí veio pro Brasil, em 1929. Ele era uma pessoa muito estudiosa. Tinha uma boa capacidade de memória. Aqui entrou na faculdade, se formou e fez a vida dele. Ele tinha uma coisa curiosa que chamava a atenção que era a paixão por livros. Ele tinha uma biblioteca totalmente cheia de livros por todas as paredes. E livros lidos, livros gastos, não eram coleções, enciclopédias. Ele falava várias línguas pra ler o original. Ele fazia advocacia, mas a grande paixão dele era a literatura. Minha mãe era uma típica dona-de-casa. Trabalhou até se casar. Era uma musicista muito talentosa. E solteira chegou a se apresentar. Ela nunca quis ser profissional porque havia uma pressão da família. Minha mãe nasceu na Polônia. Então teve também esse percurso, posterior (em relação ao meu pai), mais ligado à Segunda Guerra (1939-45). Meus pais são judeus. Na verdade, os pais dela vieram pra cá em 1930 e pouquinho, mas não por causa da guerra, mas em busca de uma oportunidade melhor. Tinham parentes no Brasil. Era para experimentar a vida desse lado. Claro que quando a situação piorou por lá, eles nunca pensaram em voltar. E ela então se apresentou como musicista em eventos. Chegou a tocar no Teatro Municipal e coisas assim. Mas quando casou, parou completamente. Tocava somente em casa. E a gente curtia. Gostava de ouvir.
Tacioli – E tocava o quê?
Taubkin – Ela tinha um repertório que hoje seria chamado de world music. Ela cantava música de origem judaica, tanto em hebraico como em iídiche, mas cantava canções russas, polonesas, o folclore brasileiro. Ela cantava Waldemar Henrique [ n.e.:Waldemar Henrique da Costa Pereira, 1905-95, pianista e compositor paraense cuja obra focalizou o folclore indígena, amazônico, nordestino e afro-brasileiro ], Hekel Tavares [ n.e.: Compositor, regente, pianista e folclorista alagoano (1896-1969) que trafegou entre a música erudita e a popular ], cantava uns tangos, um repertório vasto, não era limitado à uma coisa ou outra. Tinha uma coisa engraçada na minha casa. Os dois pais eram europeus. Então havia uma educação, especialmente quando criança, bastante européia. Isso significava, por exemplo, que a gente tinha que dormir depois do almoço. Tinha que fazer uma sesta e isso era imposto. “Almoçou? Agora vai dormir!” Eu, às vezes, penso se isso também não era imposto para o meu pai poder dormir, né? Se a gente não fosse dormir, ele nunca iria dormir. Mas, por algum motivo, também por ser o caçula, eu não passei por isso desse jeito. Tinha um sofá e um piano na sala. E logo depois do almoço, minha mãe costumava sentar ao piano e tocar. Eu, com três, quatro anos, deitava na sala. Pra mim era uma viagem, porque ela cantava músicas que tinham uma história. Um pastor que perdeu suas ovelhas e depois sofria, coisas assim… Músicas que eram causos, relatos, contos… E ela interpretava, vivia os personagens, sentia… E eu embarcava. Havia música que tinha que mudar o final porque eu sofria. O cara não achava a ovelha… Ela mudava a letra e o cara achava a ovelha. [ risos ] Pra você ver como embarcava na música.

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