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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 29/34

O primeiro papel do artista é ser fiel à sua música

Nery – Posso fazer uma especulação diante daquilo que você falou antes?
Taubkin – Pode.
Nery – Você questionou se a gente não está está vivendo um outro Renascimento. Não seria por que a gente está de encontro a um mundo medieval?
Taubkin – Quando você vai pensar a política cultural, essa é uma questão. Os lugares onde o artista mais vive no mundo são os mais improváveis. Eu ponho aqui três, quatro coisas da Colômbia. Vou mostrar pra vocês, porque é muito incrível, é muito improvável. Da Venezuela, sabe?
Nery – O cinema oriental…
Taubkin – Então, está vivo. Isso tem questões que significam. Tem a ver com “Vou ter que fazer”, isso é uma experiência da vida. Por exemplo, o que aconteceu nos Estados Unidos: primeiro o jazz, que era uma música tão viva foi ficando menos viva. As pessoas foram ficando dependentes dos produtores, dos programadores. Depois, quando veio a guerra com o Iraque, as pessoas não apoiavam a guerra, mas não se manifestavam com medo de perder aquilo que tinham; então o artista nem mais cumpria o seu papel de artista… Teve as Dixie Chicks, o Bruce Springsteen e mais dois de uma sociedade democrática, pelo amor de Deus!
Dafne – As Dixie Chicks tiveram problemas… [ n.e.: Natalie Maines, uma das integrantes do trio country disse 10 dias antes da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, que tinha vergonha de ser do mesmo estado do presidente Bush (Texas). Contrária à Guerra do Iraque, a banda admitiu ter sofrido ameaças de morte, além de sua música excluída de muitas rádios ]
Taubkin – Foi; e agora está se dando bem, graças a Deus. Mas elas sofreram, foram chorar na televisão, um negócio surreal. Os caras têm um conforto e não querem perder, então acabou a liberdade do artista ali, acabou a música….
Ângulo – Tira a alma da…
Taubkin – Ah, tira, tira, meu amigo, tira, e aí isso é incrível, isso é a vida.
Tacioli – Você falou do papel do artista. Tem algum papel? Qual?
Taubkin – Depende, mas honestamente acho que tem nas diferentes artes. O primeiro papel do artista é ser fiel e legítimo à sua música. Se você faz uma música que tem conotação política, no momento em que a verdade política acontece, você tem que poder responder a isso. Se empresas muito sujas vão investir na cultura e você se presta ao papel de ser seu porta-voz, que tem que se questionar isso. Especialmente quando você não precisa daquele dinheiro pra viver no dia seguinte. É somente mais um conforto…

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