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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 27/34

Às vezes política cultural se transforma em evento

Dafne – Mas parece um rescaldo da ditadura.
Taubkin – Você sabe que é fácil embutir política cultural nas leis de patrocínio. Cem por cento é pra fomento, pra pesquisa; show mal dá vinte, 30% e pronto. Mas vai criando base. O cara fala: “Pô, vou ser prejudicado agora?”. Agora, mas daqui a dez anos não. Estabelece linhas, tem um planejamento real, entendeu? Falta essa estruturação da sociedade. Às vezes política cultural se transforma em evento. Participei um pouco do nascimento disso e vi se transformar em evento, vi seminário se transformar em evento, entendeu? Isso tem acontecido muito. Não se discutir nada de importante, não vai se mudar nada, quero dizer, vai se discutir coisas importantes, mas aquilo não vai chegar a uma mudança real do jogo. O que aquele seminário vai debater? O próximo seminário. O que aquela feira vai debater? A próxima feira.
Ângulo – Você acompanhou a última feira que teve em Recife? [ n.e.: Feira Música Brasil realizada de 7 a 11 de fevereiro de 2007 pela ABMI em parceria com o Ministério da Cultura, com patrocínio do SEBRAE e da Petrobras ]
Taubkin – Não, mas acompanhei por outro lado, porque nasceu na ABMI. Tenho questões em relação a isso. Sou muito independente. Aí sou um problema quase para as pessoas. Tudo bem fazer um evento com o governo, tudo bem, bacana, legal, mas acho complicado. Volto a dizer, a minha posição é o fortalecimento da sociedade civil e que o governo cumpra o seu papel de governo. E qual é? Volto atrás um pouco: legislar. Por exemplo: não pode ter jabá. Agora, se pode ter jabá, então vamos tentar sanar um pouquinho. Às vezes não tem efetivamente uma política pública, então abre recursos e captações. Quando a ABMI está falando da música independente, ela ocupa um certo espaço. Essa era a idéia da ABMI, ocupar um certo espaço, não é todo o espaço. E pra isso ela tem demandas específicas que as afasta das demandas da ABPD [ n.e.:Associação Brasileira dos Produtores de Disco, que representa as grandes companhias fonográficas instaladas no país, como a EMI Music, Sony BMG, Universal Music, Warner Music e Som Livre ]. As demandas da ABMI são específicas dessa música, desse universo que quer contemplar pluralidade, diversidade, cultura brasileira e de outros lugares; é diversidade, é acesso à vida, né? Você tem que ter as pessoas existindo independentemente, cada um cumprindo seu papel. E aí sim com interlocução com o governo. “Qual é sua demanda? Essa?” Digo um governo inteligente, atento e reforçando “Aaqui precisa disso! Aqui, não”. Isso é o papel de governo, governar. Que seja lúcido, que seja inteligente, que compreenda as demandas. A gente chegou nessa situação no mundo em que um cara sai gritando: “Ah, meu negócio tem que ser assim, ele é legítimo!”. Ele tem poder, vai para a televisão, fala, vai ser contemplado e não abre mão de nada? Não dá! Algo tá mal! O governo não está governando, porque está desequilibrado o jogo de força dentro de um governo. Você tem os agentes do governo, você vai contemplar aquilo. Esse cara vai ter que abrir mão, o outro já tá abrindo mão muito. O cara está numa favela, não come, o que mais? Entendeu? Tem que ter um pouco mais. Esse daqui: “Puta, mas não vou poder ir pra Paris”. Não vai! [ risos ]
Max Eluard – O problema é que se inverteu a lógica, o poder político está debaixo do poder econômico…
Taubkin – É verdade. Aí tem a coisa das não-fronteiras e tudo mais… Eu colocaria a política mais realista. Olharia mais pra cada coisa, mais pra cada necessidade, entendeu? Por exemplo: agora se discutiu linha de crédito, mas é linha de crédito em Recife, do BNDES, pra projetos que atraiam empresários. Eu acho que não; o governo tinha que abrir linha de crédito, pode também ter essa, que foi bacana, mas se quiser pensar na produção independente, que se abra uma linha de crédito até X para os independentes. Talvez estejam talvez tão abrindo, isso já é bom. Aí qualquer independente vai poder trabalhar…
Max Eluard – O BNDES pela primeira vez patrocinando cultura.
Taubkin – Isso tudo são avanços. Tem um caminho… Volto a falar, o Rumos foi pensado desse jeito. Por exemplo: o Rumos ia ter primeiro, segundo lugar; briguei muito lá dentro pra que não tivesse, pra que fossem 73 contemplados, todos iguais, pra cada pessoa se sentir bem.
Nery – Incluída.
Taubkin – Incluída, e não: “Eu tô incluído, mas porra…”.
Dafne – Uma competição…
Taubkin – Isso, não quero, tô fora de pensar isso! O Brasil passou por um momento de grande encantamento consigo mesmo nos anos 1990 e agora vive um momento de quase um cansaço consigo mesmo. Isso é muito perigoso, as pessoas têm que se sentir entusiasmadas, apaixonadas e acreditando que podem fazer. E se o governo invadir muito a área da sociedade civil, as pessoas vão perder isso, não que esteja uma maravilha a área governamental. Vou explicar melhor: como estão as orquestras do Brasil? Estão sendo contempladas? Estão sendo olhadas? Como está essa esfera, que é uma esfera governamental, entendeu? Dê estrutura para as orquestras, dê estrutura para as grandes formações, cuide da educação. E deixe outras coisas para as pessoas crescerem e fazerem.

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