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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 26/34

Manter a sociedade civil e governo separados é importante

Max Eluard – Concordo que esse limite não pode ser muito pastoso, mas por outro lado, esse governo foi o primeiro a trazer a sociedade civil para o diálogo…
Taubkin – Concordo com você, mas quando vejo a história da Câmaras (Setoriais de Cultura), por exemplo, que a princípio é uma…
Max Eluard – Você participou?
Taubkin – Participei. Estive em Brasília quando teve a abertura, mas tenho questões… Tem um lado muito bom de você dar a voz para as pessoas, mas não sai do lugar se não tiver um projeto claro. E as necessidades de um projeto… E algumas necessidades de um projeto claro na cultura são evidentes, você não precisa de muita discussão, entendeu? Você tem que ouvir as pessoas se vai pra uma favela, mas se ficar somente nessa discussão, o negócio não sai do lugar e nego vai falar: “Mas você saiu com a minha prima!”. Tem que estar focado. A conversa é boa, mas se ela não está focada claramente numa ação que vai ser conseqüência dali a três meses, muitas vezes joga-se conversa fora. Você vai distrair as pessoas. Essas conversas tinham que estar mais direcionadas a objetivos imediatos e a projetos que vão sair dali. Senão, de fato fica uma coisa que vai esvaziando, vai esvaziando, as pessoas vão saindo, vão se desarticulando.
Tacioli – Benjamim, qual é uma lembrança de um bom projeto de Estado ligado à cultura? Ter uma política de evento?
Taubkin – Não. Por isso concordo com você. Política de evento não é…
Max Eluard – A música, pelo menos no meu entendimento, sofre muito pela ausência de políticas culturais. Tenho observado de perto o trabalho desse Ministério (da Cultura), até porque coordeno um programa ligado ao Ministério [ n.e.: DOCTV (Programa de Fomento à Produção e Teledifusão do Documentário Brasileiro) ]. E é uma gestão que tenta pensar em viabilidade de mercado, em como colocar os produtos, como criar ambientes de mercado para produtos culturais. Acho que a música sofre porque, teoricamente, já existe uma indústria fonográfica…
Taubkin – Sempre foi o problema da música. Ela tem problemas em si. Isso que você está falando faz sentido. E fora isso, ela confunde os próprios agentes, porque existe o grande mercado e não existe mercado nenhum, enquanto o teatro, a dança, a literatura tem seu mercado próprio. Quero dizer: o livro didático, que é o grande mercado do livro, claramente está fora, mas você não tem isso na música comercial; muito difícil você separar o que é (comercial). Vou te dizer o que eu acho: manter essa separação entre sociedade civil e governo é muito importante. Para o bem da sociedade civil e do país. Tenho exemplos do México e da Argentina…
Ângulo – Não entendi…
Taubkin – Tá, vou explicar. No México, existe há 50 anos o PRI (Partido Revolucionário Institucional). [ n.e.: Um dos principais partidos políticos mexicanos; governou o país de 1929 a 2000 ] O que acontece? A sociedade ficou totalmente dependente do governo. E hoje em dia, o cara vai gravar um disco, ele depende lá do Fundo Nacional da Cultura, ou seja, o México não conseguiu criar um mercado e, às vezes, sinto que aqui a gente corre o risco de quase estar andando pra trás nesse sentido, quando você começa a depender do governo pra tudo. Isso é um problema. A questão é autonomia. Vou te dizer um modelo pra mim de projeto que eu faria. A gente tentou fazer isso noRumos; propusemos na época. Era outro Ministério da Cultura (e também não encampou o projeto). Estive em Brasília conversando sobre isso. É o seguinte: um modelo de projeto de circulação no Brasil, em que você banca o custo e o governo dá o equipamento, que ele tem (salas de teatro, por exemplo). E shows por bilheteria, para que os músicos corram atrás de divulgação, de público. Criar autonomia! Um lado sempre você tem que deixar para a autonomia. Quando você começa a trabalhar a autonomia, você está dando poder pras pessoas decidirem. Isso que é importante, você tem que dar poder para as pessoas e não tirar. Vejo o Brasil se apagando; pode ser muito abstrato o que estou falando, mas sinto isso.

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