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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 25/34

O povo consome a mesma coisa ruim que a elite

Dafne – Mudando um pouco de assunto. Talvez vá ao encontro da história do Gil…
Taubkin – Ah, posso depois responder essa pergunta.
Dafne – Não tinha lido na Folha um texto que o Tacioli me mandou depois por email. Era a coluna da Bárbara Gancia, em que ela falava de um modo muito agressivo sobre um projeto do Ministério da Cultura… [ n.e.: O texto “Cultura de bacilos” publicado no jornal Folha de S. Paulo no dia 16 de março de 2007 ]
Max Eluard – O projeto dos Pontos de Cultura, que privilegia a periferia…
Dafne – E aí, conseqüentemente, o rap, a cultura hip-hop, o funk – no caso do Rio de Janeiro. O raciocínio dela era muito simples: desde quando rap e funk são cultura?
Taubkin – Bom, isso pra mim dá preguiça.
Dafne – À princípio me deu preguiça também, porque é como dar soco em ponta de faca…
Taubkin – Não é somente isso…
Dafne – Eu mandei um email pra ela, já contando com a vala comum, mas…
Taubkin – Eu acho importante…
Dafne – Como lidar com políticas públicas e cultura? Onde acaba uma coisa e começa a outra?
Tacioli – Ela quis dizer também que se o governo, independentemente da administração, investe em projetos baseados na cultura hip-hop, por que não no axé e no sertanejo?
Taubkin – Basicamente porque eles não precisam, porque já têm a indústria cultural. Se eles não tivessem (a indústria cultural), talvez teriam legitimamente o direito de quererem incentivos. Mas o axé e o pagode não precisam de investimentos.
Dafne – Ela tinha um raciocínio estranho: “pelo menos o axé e a música sertaneja são coisas nossas e rap não é”, sabe?
Taubkin – Talvez a área mais morta do pensamento cultural brasileiro hoje, uma área parada, estanque, são os critérios. Por exemplo: quando a gente fez o Rumos, convivi muito com o Hermano, que tem uma visão muito…
Max Eluard – O Hermano Vianna. [ n.e.: Antropólogo e pesquisador musical paraibano, mentor do Overmundo e produtor do projeto Música do Brasil, e autor dos livros Mundo funk carioca e O mistério do samba ]
Taubkin – É. Cada coisa é uma coisa. Cada época tem as suas questões. Hoje a gente está numa época da diversidade. A gente devia abraçar a diversidade, abraçar não no sentido de que gosto de tudo, mas que tudo tem direito a existir. Bom, honestamente, tudo tem direito de existir. E as pessoas elegerem uma multiplicidade. Claro que a gente vive uma ditadura; o jabá é um crime, e se a gente for entrar nas questões do Ministério (da Cultura)… Acho que às vezes eles não enfocam as questões mais importantes de frente. Jabá é uma questão importante. Tem que se achar um caminho pra isso, não importa se há pessoas no Congresso; é uma questão importante. Não vai ter ampliação do repertório de música brasileira para a grande população sem discutir isso. E, por outro lado, se a música tocar no rádio, ela vai vender. Então já teria resolvido uma equação básica, mas eu sei que é muito difícil mexer nisso. Há outros mecanismos. Por exemplo: o Canadá em vez de proibir o jabá e criminalizar, tirou o imposto, deu uma isenção de imposto pra quem tocasse um repertório maior e maior ainda pra quem tivesse um número X de independentes. Bom, é um estímulo positivo e não negativo. Já nos Estados Unidos, no mês passado, mil e quinhentas rádios fizeram um acordo: vão pagar uma multa de 200 milhões de dólares e parar como jabá. Tem jeitos! É uma questão de buscar esse caminho. Eu acho isso fundamental! A questão do funk, do hip-hop, eu acho que tudo é legítimo pra quem tá curtindo e pra quem se sente representado. Como é que vou chegar na favela e dizer que isso não é legítimo e tem que se gostar daquilo. Isso não pode, isso não existe! Tem que respeitar aquilo que é manifestação. E é legítimo! As duas são legítimas, as pessoas se identificam com aquilo. Existe uma enorme confusão no Brasil. Faz umas duas semanas um cara me fez umas perguntas sobre isso para o Overmundo, “que o povo consome coisa ruim”. O povo consome a mesma coisa ruim que a elite. Quem paga show no Olímpia, no Credicard Hall, não é povo. E vai ver aquilo que diz que é o povo que está comprando, então não é. Já não faço essa distinção. Quem assiste novela todo dia, e está ligado na televisão é tanto povo quanto elite.
Dafne – Todos estão sujeitos à cultura de massa.
Taubkin – Isso, é cultura de massa pra todo mundo, não tem classe. Eu tiro classe disso.
Max Eluard – As pessoas consomem o que oferecem a elas.
Taubkin – Todo mundo é maleável nessa cultura de massa, até porque é educado assim, então tudo bem. Aí você já tem uma primeira coisa. De uma certa forma, se eu fosse colocar isso em dimensão, digamos, de grade, eu diria que cada um teria que ter uma hora. A música do Beethoven tem que ter uma hora, a música contemporânea erudita tem que ter uma hora, a música barroca, o axé, o funk, o que for, e cada um escolhe o seu, entendeu? Claro que uns vão ser mais populares, outros menos, mas isso é da natureza mesmo do mundo. Tudo deveria ter espaço. Deveria ter uma lei pra garantir o acesso à informação. Desde que entrei nessa coisa da América Latina, percebo as grandes balelas… Dizem que a gente está numa era da informação e ninguém sabe nada do país vizinho, nem da cidade vizinha. Você só tem um ou dois tipos de informações.
Tacioli – Às vezes nem da sua cidade.
Taubkin – Nada, nada. Você está consumindo ali uma informação…
Dafne – Mais sobre Londres…
Taubkin – Ridículo! Como se Londres não tivesse guetos e como não tivesse pobre. Se você viajar pela Europa, você chega na favela, entendeu? Uma coisa que eu percebi quando eu estava na Alemanha na época da eleição do Lula. O repórter da BBC falava sobre o Brasil na favela. Diferente do repórter da Globo que vai pra Avenida Paulista. Ele reforça aquela imagem. É um jogo. E o repórter de Londres fala no Big Ben. Ele não vai falar lá no gueto.
Max Eluard – E o repórter brasileiro em Londres faz isso.
Taubkin – Também, ele reforça. Agora, você sai de Paris e vai até o aeroporto, naquele metrô do centro de Paris até o (aeroporto) Charles de Gaulle. Você fica andando por subúrbio, subúrbio, subúrbio… Horrível! Paris: saiu daquele centrinho lindo, tem um monte de barra pesada. Foi quando começou a pegar fogo. Pegou fogo porque os caras estão morando mal, vivendo mal, comendo mal, e é Paris. E não esse jogo de informação! Então, tô falando disso por quê? Por causa do acesso à informação e de todas as culturas. Tem que ter acesso. Eu gosto do projeto Ponto de Cultura na idéia. Não vi funcionando muito na prática. Gosto na teoria, talvez o seja o melhor projeto, porque tive minhas experiências, tanto em Secretaria de Cultura, quanto em instituição. E quando entrei no Itaú Cultural, onde eu já tinha tudo mais elaborado, falei: “Aceito o convite se eu puder trabalhar a autonomia das pessoas fora daqui”. Quero dizer, o papel de Ministério da Cultura e de governo que tenha alguma visão mais aberta e mais plural é o que dá poder para os agentes da sociedade. Isso é muito bacana. Eu não sou fã dessa administração (do Ministério da Cultura), não sou. Quando você fala desse lado, acho muito bacana o Ponto de Cultura e o que isso significa. Mas existe uma coisa não muito clara entre o limite da sociedade civil e o limite do governo hoje. Isso eu não acho bom. A sociedade civil deveria ser sociedade civil e governo deveria ser governo. Essa linha hoje não está muito clara e é preocupante. Às vezes, o governo convida agentes da sociedade civil pra fazer projetos do governo. Isso não parece muito interessante, nem pra sociedade civil, nem pro governo.

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