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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 24/34

Tenho um desconforto quando meu nome está à frente

Ângulo – Você está numa fase aglutinadora, ainda mais vendo este projeto da América do Sul…
Taubkin – Você sabe que não tinha percebido isso. Gozado, quando fui masterizar os discos, a Jade (Pereira), que estava fazendo a masterização na Classic Master, do Carlinhos Freitas, falou: “Meu, você já sacou que todos os projetos são disso?”. E, de fato, os projetos que eu acabo me interessando e me envolvendo têm muito disso. O Abaçaí é um encontro com a música tradicional. O Moderna Tradição chama músicos que estavam somente no universo do choro pra tocar com a gente, que não estava somente em um. Então, de novo, é um encontro. A Orquestra (Popular de Câmara) é um encontro de músicos; a estética da Orquestra é que cada um se expresse. Ela não é um grupo em que todo mundo toca o que está escrito. É um grupo onde todos criam. Esse é o desejo da Orquestra, que cada um tenha a sua voz, embora tenha uma direção musical, mas uma direção musical pra isso, pra preservar que cada um tenha a sua voz. E aí tem a coisa da América Latina, tem a coisa que aconteceu no Samwaad com os indianos. Não sei se você sabe que trabalho é esse, mas foi uma trilha pro Ivaldo Bertazzo com músicos da Índia e de escola de samba. [ n.e.: Samwaad – Rua do Encontro, projeto de 2003 que uniu jovens de ONGs de várias periferias de São Paulo com músicos indianos e percussionistas de escolas de samba; criação do coreógrafo e bailarino paulistano, bem como a seguinte ] Aí teve o Milágrimas, mas com músicos da África do Sul, em 2005. Então, pra mim é o que mais me interessa mesmo. E, claro, é um privilégio… Às vezes acho que tem um lado do encantamento de poder fazer tudo isso, de estar fazendo tudo isso, de ter significado e de que dá certo e que os projetos acontecem, mas… vou fazer um concerto de piano-solo. Eu quero fazer isso também, mas é no meio dessas coisas. Ficaria muito aborrecido ter uma carreira pra mim de novo.
Dafne – De solista…
Taubkin – De solista… Tenho um desconforto quando meu nome está à frente. Nesse trabalho com o Abaçaí curiosamente não. Mas em outros projetos tenho.
Tacioli – Mas por que isso?
Taubkin – [ pausa ] Porque o nosso meio, o meio da música, é impregnada dessa questão da vaidade.
Tacioli – Não teria o Instituto Benjamim Taubkin? [ risos ]
Taubkin – Nem a pau! Não! Mas não é somente isso, é uma coisa engraçada, porque é paradoxal. Batalho muito o meu nome onde acho que ele tem que aparecer. Se fiz e acho que não está, vou e batalho. Confesso pra vocês, que essa questão da exposição fosse de um tamanho X, entendeu? Nunca maior que isso, também nem sei se tenho méritos pra mais do que isso, não é isso. Mas digo tem um tamanho e já vi passar um pouco desse tamanho, aí me sinto muito desconfortável. Não sei, tem uma coisa que é bom estar no meio das coisas, fazendo aquilo que você faz, aquilo que você acredita, mas no meio.
Max Eluard – Preservar uma escala da humanidade.
Taubkin – Exatamente. E não que eu tenha méritos, não que eu vá passar muito, mas já vi situações em que poderia ter passado disso e nunca quis.
Tacioli – Não iria além da fronteira da chácara.
Taubkin – Isso, exatamente isso! Agora na chácara eu brigo por ela. Isso é engraçado, talvez seja um paradoxo, mas eu brigo! Se saiu o produto da chácara e não tiver identificado que é da chácara, eu brigo para que seja. Engraçado, mas é verdade. Tem uma coisa de integridade, entendeu?
Dafne – É o seu trabalho.
Taubkin – É, então por esse espaço eu brigo, mas não além dele, não além dele. De jeito nenhum, não tenho o menor interesse, o menor, o menor…

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