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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 23/34

É muito legal ler McLuhan hoje

Tacioli – O que a internet trouxe de bom para a música brasileira?
Taubkin – Muita coisa. Em todos os sentidos. Acho que não somente pra música. Bom, a circulação de informação está aumentando. Acho que agora ela começa a encontrar a sua própria linguagem com MySpace e YouTube. Passados todos esses dez anos, a internet começa a se encontrar. Comprei o livro do McLuhan outro dia. [ n.e.: O filósofo e educador canadense Herbert Marshall McLuhan (1911-80) foi um importante teórico dos meios de comunicação, autor de conceitos como de “aldeia global” ] E é muito legal ler McLuhan hoje, porque é um cara que escreve falando dos anos 1960. Ele dizia: “Vocês estão fazendo o computador trabalhar a função pré-computador. Não tem graça nenhuma”. Ele falou que uma hora o computador vai ter a lógica do computador, e aí, sim, ele vai servir. Foi muito engraçado quando surgiu essa coisa da internet, talvez esse foi um dos motivos que me fizeram não mergulhar muito nisso. O Núcleo começou no momento em que isso estava pegando. E (naquela época) o que apareceu de gente que estava fechando contrato no Japão, na Inglaterra pra baixar música, e nada deu em nada. E a gente sentiu. Isso todos nós sentimos. “Não, não vamos assinar esse contrato, não!” Não justificava, não fazia sentido. E você vê que estava se tentando transportar uma lógica pra internet… Aí é um pouco como o caipira que está ali pitando seu cigarro vendo aquele negócio acontecer. Ele fala “Espera aí”. Uma coisa que eles falavam: “A internet vai resolver o problema da difusão. Todo mundo vai ser conhecido na internet”. Espera aí, vou ficar visitando um milhão de lugares pra ver se gosto da música do fulano? Não vou! Então, sabe, teve nego que cansou de abrir site e somente foi a mãe visitar, talvez. Aquele político do interior que se candidata e descobre que não teve nenhum voto. Nem da família e nem dele. Então, era um pouco isso. Quem vai perder tempo, quem tem esse tempo? Isso foi uma coisa. E essas coisas que falam do mundo pop, que o grupo apareceu na internet, é o funil. É um de um milhão. É um funil! Você está reproduzindo a coisa industrial.
Dafne – Como acontecia fora da internet.
Taubkin – Isso, isso, como a grande gravadora. É funil. E os outros acreditavam e queriam participar daquilo, todo mundo queria ter uma grande gravadora.
Dafne – Uma lenda boa pro mercado.
Taubkin – Exatamente. Você tem que existir na vida real, não no Second Life. Se você existe minimamente na vida real, e de novo é uma lógica que ainda não se estabeleceu, se cada um conseguisse existir no seu lugar – o cara está em Campina Grande e tenta existir em Campina Grande -, aí você pode começar a circular e outras pessoas saberem pouco a pouco. Não acho que internet substitua; ela á uma ferramenta a mais. E se você entender assim ela é muito positiva. No nosso caso, do Núcleo, o que eu posso te dizer? Em que mais serviu? Bom, tenho discos lançados nos Estados Unidos e na Europa agora. A gente manda a capa pela internet, discute, negocia; isso já é uma coisa boba, mas funciona milagrosamente. Mas tirando isso, a newsletter deu uma independência pra gente. A gente tem um grupo de pessoas que se cadastrou, que não é tão pequeno, e quando a gente vai tocar, a gente avisa, é lindo. E não tem custo de Correios. Custo de Correios era imenso; a gente fazia cartãozinho, postava, e era caro.
Ângulo – Demorava. E-mail é imediato.
Taubkin – Na hora! Você monta a página e manda. Bom, é uma circulação bacana. Estou falando no nosso caso, né? Eu não tenho MySpace; não entrei lá, não sei se vou fazer. A gente tem uma armadilha como músico. Quero dizer, depende de cada um, mas como já tenho uma vivência nisso, chega uma hora em que canso de pensar em mim. Não quero mais ficar pensando em mim mesmo. Não quero fazer “o meu espaço”, “a minha cara”. Quem está começando tem essa paixão, acho o maior barato, dou a maior força. E também que não está começando e quer fazer, também dou. É verdade, é uma eleição pessoal. Eu ocupo um espaço X, e de uma certa forma não quero ocupar mais espaço. Quero que outros ocupem também… para a coisa fluir.

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