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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 21/34

O mercado ideal pra mim não é eu vendendo 100 mil discos

Max Eluard – Começar um negócio que estava em decadência…
Taubkin – Não, e tomar empréstimo… Uma coisa que a gente sempre tomou cuidado foi “Nunca fazer empréstimo! Nunca entrar em buraco!”. Isso também foi uma sorte. Mas, de qualquer forma, quando a gente parou, parou e separou. E fiquei tocando o projeto, né? Aí ele diminuiu e fez assim “Glup!”. A gente estava numa casa, foi numa sala, e o projeto de 35 discos buscou ter seis a oito. E aí foi uma coisa totalmente diferente. Eu me permiti um outro processo, que é o processo em que estou até hoje. O que acontecia comigo? Eu estava no Itaú Cultural. Então, era o gestor de uma instituição e de um programa (Rumos). Músico. E tinha um selo. Curador. Aí começou a ficar um pouco esquizofrênico, sabe? Muita gente sabia que era músico e não sabia que era curador. Outros sabiam que era curador, mas não sabiam que era músico. E estando no Itaú Cultural, nunca falei do Núcleo no Itaú Cultural. Então, cortou o Núcleo até a porta do Itaú Cultural; não existia Núcleo ali dentro. Tudo bem, uma boa experiência, mas não queria passar o resto da vida assim. Então pedi pra sair do Itaú Cultural, que foi uma coisa meio maluca, porque ia tudo muito bem naquela época. Eles não entenderam muito, mas senti essa necessidade pra me concentrar na música, me concentrar no Núcleo. E também quis fazer de tudo uma coisa só, quero dizer, eu sou músico que pensa… Então o Núcleo virou uma coisa menor e ligado mais aos meus projetos como músico. E eu me permiti uma série de coisas. Uma delas, por exemplo: não faço download, até hoje não quis fazer. Bom, “é a tendência da indústria”, tá bom, mas não quis fazer. Eu me permiti ser muito pequeno e escolher um caminho. Respondendo sobre o mercado, acho que tem mercado fragmentado e que cada um elege um campo de atuação. Tem gente que se dá muito bem com downloads, tem cara fabricando vinil; a gente segue fazendo CDs, mas de um jeito um pouco diferente. Hoje em dia o Núcleo faz parte de uma lógica de projetos que acontecem tocando, ou seja, basicamente os discos que estão no Núcleo são discos em que toco, que vão pra rua serem tocados. Isso faz também com que o selo aconteça, esses projetos estão sendo tocados. Tem alguns outros discos que ainda estão lá que não (são tocados), mas a tendência do Núcleo é ficar concentrada nisso. E tem uma parceria com o Mário Sève [ n.e.: Saxofonista, flautista, compositor e arranjador carioca; já lançou três discos pelo selo sendo Casa de todo mundo o mais recente, de 2007 ], que é uma coisa que foi tão fácil e tão leve que a gente manteve. O Mário é responsável pela fabricação dos discos dele. E a minha ambição tem a ver com essa lógica que tinha desde o começo, que é a coisa do “small is beautiful”. Eu falo em inglês porque é um tema, um nome de um livro de um cara que criou esse movimento, que chama Schumacher. [ n.e.: O economista alemão E. F. Schumacher (1911-1977), autor do livro O negócio é ser pequeno (Small is beautiful), de 1973 ] Essa idéia de ser pequeno e viver pequeno; gosto disso. O mercado ideal pra mim não é eu vendendo 100 mil discos. O mercado ideal pra mim é eu vender dez mil discos, e dez pessoas venderem dez mil discos e assim você chega a cem. É o mercado compartilhado. Em vez de um milhão de discos (vendidos por um artista somente), são cem pessoas vendendo dez mil. Isso pra mim é o mercado ideal. E não essa coisa da grande venda; acho isso tudo uma doença, um câncer, algo que se multiplica e não consegue parar. E é a doença do nosso século. Não quero ficar maior do que faça sentido pra mim.

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