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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 19/34

“Vamos fazer nós mesmos a distribuição de discos”

Max Eluard – Montar um selo, uma gravadora, pensar distribuição, eram coisas que algum de vocês tinha afinidade ou vocês foram aprendendo juntos?
Taubkin – A gente aprendeu junto. Eu tinha tido uma pequena experiência antes; o Rodolfo Stroeter [ n.e.: Baixista, produtor e diretor musical ] e eu fomos assessores de música do Ricardo Ohtake [ n.e.: Arquiteto e designer gráfico, Ohtake foi o primeiro diretor do Centro Cultural São Paulo ], que foi Secretário de Cultura por um ano e pouco. A gente fez um encontro da produção independente em 1994.
Max Eluard – Que foi o começo da ABMI? [ n.e.: Fundada em janeiro de 2002, a Associação Brasileira da Música Independente foi criada para melhorar as condições para a produção e distribuição da música independente brasileira dentro e fora do país ]
Taubkin – Não, não. Foi antes da ABMI, que começou em 1999.
Max Eluard – Mas não era um…?
Taubkin – Não, nem se pensava numa associação. A gente queria discutir a produção independente. Nem eu, nem o Rodolfo tínhamos selo. Rodolfo estava começando a produzir discos; pensava num selo. Eu, não. Mas a gente queria discutir isso, achava que era o papel de uma Secretaria de Cultura com a gente lá dentro. Foi espetacular! Foram oito encontros e oito concertos. Pra você ter uma idéia, era uma coisa nascente. O Guinga tocou, o Lenine com o Suzano, o Trio – que era o Maurício Carrilho (violão), Paulo Sérgio Santos (clarinete) e Pedro Amorim (bandolim) -; a própria Zizi, porque ela era emblemática naquele momento, nesse sentido de alguém que estava saindo de uma grande gravadora e tendo sua própria. Mas coisas assim aconteceram na época. Mas aí a gente foi entendendo o que era isso. E eu comecei a ter uma visão de todo esse processo. E mergulhei em leitura sobre isso. Tudo o que eu via que falava de produção independente eu lia: revistas americanas, européias; mergulhei nisso. E comecei a entender que essa era uma alternativa possível. E me sentir estimulado e desafiado a isso. E quando a gente fez o projeto, a gente pensou: “Vamos fazer nós mesmos a distribuição”. E eu fui às lojas. Pra mim era uma questão importante ir à loja. Eu queria entender: se o cara (lojista) não compra, por quê? O que ele vai me dizer? Diziam antes que podia ter uma coisa das majors de não deixar (o lojista comprar); havia um monte de coisas assim. Vou ser sincero: a grande parte desses fantasmas eram fantasmas.
Max Eluard – Não compra porque não tem…
Taubkin – Porque ninguém foi vender pra ele. Aconteceu uma coisa muito engraçada. O Núcleo surgiu em 97, e eu vi um negócio tão bonitinho… Quando saíram (os primeiros discos), saíram cinco: o do Teco, do Mané e três discos do Projeto Memória Brasileira. Todos bem acabados, todos com um som bom, tudo que a gente queria. A gente acompanhou ver a prova de cor e a impressão na gráfica. Era tudo feito com muito afeto, com muito tesão, curtindo muito. “Vou à loja. Quero entender do cara, se ele não comprar, por quê?” Eu quero entender. Se a gente quer viver dessa música, vamos entender como ela funciona. Pra cada coisa que for um problema, eu vou parar e pensar o que dá e o que não dá pra fazer. E aí, claro, começamos por São Paulo. É lógico que não ia às Lojas Americanas ou ao Pão de Açúcar; eu ia à loja em que eu comprava disco, que eu sabia que o cara gostava desse tipo de música. E aí aconteceu um negócio incrível: eu fui, sei lá, em 15, 20 lojas e difícil era sair da loja. Eu entrava na loja e o cara ficava tão encantado; ele tinha aquela lojinha porque ama música e não tinha interlocutor (entre ele e a gravadora)… E não sei se vocês sabem, às vezes o cara quer comprar, sei lá, o disco do Guinga – quando estava começando -, e o representante da gravadora fala: “Não, isso não vai vender. Não compra, não! Sou seu amigo”. O cara ainda quer dar uma de amigo. “Não, não compra! Compra esse aqui que vai vender bastante. ” “Eu quero aquele!” “Meu amigo, eu tô te falando, não compra, não vende!” [ risos ] É assim que funcionava. Claro que não vai dar certo! Essa coisa que ficou tão hierarquizada, tão independente e tão fragmentada que de fato não vai dar certo. Aí eu chegava lá com aqueles cinco discos. O cara falava: “Nossa, que capa bacana, que incrível, que som legal!”. Havia umas leis de mercado na época, como “compra mínima”. (Eu falava:) “Não, não tem compra mínima.” Bom senso, sabe? Às vezes você também está criando coisas que são tão surreais; sabe aquela chegada do estrangeiro que fala: “Escuta, porque você não põe água no copo e toma?”. O cara estava experimentando água caindo não-sei-de-onde. E o fato da gente não ter experiência nenhuma foi bom, porque a gente usava o bom senso. Isso me estimulou de tal forma que eu falei: “Bom, vamos viajar o Brasil!”. Eu me lembro que fui a Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis levando os discos e vendendo nas lojas. Era artesanal mesmo, e foi muito legal. Era uma coisa de existir, de totalmente existir. E funcionou. Quero dizer, você só tinha que ir uma vez à loja, depois o cara ficava com o seu contato. A gente teve boas experiências com isso. De qualquer forma, comecei a entender que pra cada uma das coisas que fosse problema havia um jeito de pensar. Por exemplo: a questão da rádio. A gente começou a pensar em produzir programas e fornecer às rádios, e assim vai. Aí também as coisas vão mudando muito. E fica um pouco mais complicado que somente isso… Aí a gente criou associações, como a ABMI, e projetos como o Rumos, em que mergulhei de cabeça; eu estava no Itaú Cultural e coordenei o primeiro Rumos. Foi um mergulho no país, porque acabei indo pra cada uma das capitais três vezes me encontrando com os músicos. Então foram 30 viagens, e sempre conversando com as pessoas, e ouvindo, claro.

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