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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 18/34

O Núcleo só existiu na crise

Max Eluard – E como você vê a relação do artista, qualquer que seja a sua área, com o mercado e a liberdade criativa?
Taubkin – A gente vive um momento muito interessante. Eu não reclamo dele.
Dafne – Quero acrescentar uma pergunta à dele.
Taubkin – Claro.
Dafne – E como a sua visão pessoal lidou com a empresarial do selo Núcleo Contemporâneo?
Taubkin – Basicamente a gente só existiu na crise. A gente só viveu um ano sem crise, que foi o primeiro ano do Núcleo, que realmente deu pra perceber que ainda não existia crise nesse mercado, que foi em 1997, 1998. E foi incrível a resposta ao Núcleo. O Núcleo teve uma experiência muito positiva nesse sentido. O selo é parte disso tudo também, quero dizer, tendo essas experiências pra mim, de fazer música, como uma pessoa que está no mundo querendo pensar o mundo. Participei de muitos encontros (de música) e tinha o desejo de falar com as pessoas que faziam aquilo que fazia para a gente tentar não ser vítima do nosso tempo. Isso é uma coisa importante! Tentar entender o que está acontecendo e não ser vítima, dizer “Ah, não existe isso! Ah, não existe aquilo! O que vou fazer?”. Então tentar entender, estar vivo.
Max Eluard – Não ser passivo.
Taubkin – Não ser passivo. Até o público da gente não é um público passivo. Em geral é um público que vai em busca de informação. E pensar o mundo. Tudo é um desafio. Antes a gente estava na floresta e tinha que se virar pra arranjar comida. Continuamos na floresta, num certo sentido. A gente tem que entender isso. Eu não sei porque criaram essa ilusão, mas durou muito pouco, de bem-estar e conforto. Na verdade, a vida é a luta. Não luta de um contra o outro; na verdade, é lutar pra você se desenvolver, se ampliar. E a luta é contra ninguém. É muito mais no sentido de você ampliar sua compreensão, de você encarar os desafios e tal. Então o Núcleo pra mim foi muito isso. Falei pra vocês que toquei música instrumental, depois algumas pessoas mais conhecidas começaram a me convidar pra tocar, e foram experiências incríveis pra mim. Depois tive uma experiêncis com a Zizi (Possi) que durou cinco anos. O primeiro projeto toquei com o (Marcos) Suzano [ n.e.: Percussionista carioca ] e com o Lui (Coimbra) [ n.e.: Violoncelista, cantor e compositor carioca ] e, desde então, somos amigos. Gravei meu disco com eles… Bom, de qualquer forma, foi uma coisa muito viva. Mas chegou um momento em que pintou um impasse: entendi de novo que, se eu fosse, no meu caso, com a minha natureza e com as minhas questões, tocar eternamente com cantores de mpb, não ia dar certo, nem pra mim, nem pra eles porque eu tinha questões. E nem sempre elas eram contempladas. Então, pensei: “Não estou a fim de entrar numa coisa e ficar enchendo o saco de alguém. Vou procurar o que eu quero fazer”. “O que eu gostaria de fazer?” Já naquele momento eu gostaria de fazer a minha música. Comecei tudo tarde: comecei a tocar piano tarde, e também comecei a pensar na minha música tarde, mas pensei. Na hora em que pensei, mergulhei nela. E aí foi que o Núcleo nasceu. Conversando com o Teco (Cardoso) [n.e.: Flautista e saxofonista paulistano ], com o Mané (Silveira) [ n.e.: Saxofonista, flautista, compositor e arranjador ], depois com o Toninho (Ferragutti) [ n.e.:Acordeonista, compositor e arranjador natural da paulista Socorro ] e com o Paulo Bellinati [ n.e.: Violonista, compositor e arranjador paulistano ]: “Vamos fazer um projeto cooperativo?” “Vamos!” Qual era a questão? É possível a gente viver da nossa música. Na época se dizia que não era. “Imagine, você vai gravar música instrumental?! Não dá!” “Vai distribuir disco no Brasil?! Não dá, esquece!” Todo mundo se conformava. Um dizia pro outro: “É uma merda”. E o outro: “Claro, é uma merda!”. E ficava nessa. Ia tomar uma cerveja e acabou, entendeu? Se você falasse que não era uma merda, você estava quase estragando aquele prazer de um bater nas costas do outro dizendo que era uma merda. [ risos ] Então, existia esse desejo (de questionar): “É uma merda por quê? Alguém já experimentou? Alguém já fez isso? Alguém já fez aquilo? Então, espera aí, será que a gente não está se acomodando numa auto-marginalização, auto-segregação, auto-impossibilidade? E se a gente inverter o processo? E se a gente fizer um disco bem produzido e bem acabado, será que não tem público?” E todo mundo entrou nessa. “Vamos juntos!” Não era um negócio. Ele não nasceu como um negócio; nasceu como uma espécie de pôr uma coisa em prática, entendeu? Entender a nossa vida. É possível viver dela ou não? “Então, se não tem agente que faça esse trabalho, vamos fazer nós mesmos.” E foi um trabalho de paixão, de profunda paixão. A gente mergulhou de cabeça. Foram anos de mergulho. Pra você ter uma idéia, a gente quis fazer a distribuição do disco.

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