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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 17/34

O Radamés é um dos heróis da minha vida

Tacioli – Mas pintou uma tristeza em algum momento nessa luta com a OMB com relação aos colegas?
Taubkin – Gozado, quando ele perguntou sobre a tristeza na música, se existiram momentos em que fiquei muito triste … Tiveram duas coisas que foram simbólicas, significativas. Uma quando conheci o Radamés Gnattali [ n.e.: Importante maestro, compositor, pianista e arranjador gaúcho (1906-1988) ] e outra quando conheci o Guerra-Peixe [ n.e.: Compositor, arranjador e musicólogo fluminense (1914-1993) ]. O Radamés é um dos heróis da minha vida como músico. Adoro o Radamés! E o conheci! Foi exatamente quando voltei a fazer projetos. Eu estava tocando, me convidaram pra pensar um projeto de música e já tinha parado, mas voltei a fazer e logo quis chamar o Radamés. E lá veio ele com o Raphael Rabello [ n.e.: Virtuoso violonista carioca (1962-95) que transitou pelo choro, flamenco, bossa nova e música clássica ]. E o Radamés, sendo um grande músico, quando a pessoa falava “Estou começando a estudar música”, ele falava “Não, não faz isso, não!”. Dentro de tudo aquilo que ele tinha de mágico e lindo, havia, às vezes, uma certa amargura. E eu vi isso em alguns grandes músicos. Pensei: “Só estou vendo o que deu certo nele, que é aquilo que apareceu. O que não deu certo, aquilo que ele queria ter feito e não fez, não estou vendo”. Puxa, esse é o cara que pra mim chegou onde seria o máximo. Então, pensei: “Se eu quiser ser músico, se eu quiser viver de música, eu não posso criar mágoa. Eu não posso. Eu não posso lidar com essas coisas desse jeito de ficar sentido, de ficar ofendido”. E se você não alimenta (esse sentimento), é incrível como você não sente. Ou como você tem mais facilidade pra lidar (com isso). Eu realmente não colecionei isso na minha vida. Sei lá eu se fui preterido naquilo, naquilo outro, ou quase aconteceu aquilo, ou se ia fazer aquilo e alguém na última hora cortou…
Dafne – Mas você estava distraído.
Taubkin – Distraídos venceremos! Eu adoro isso. E uma outra é essa coisa da “alegria é a prova dos nove”. Não exatamente a alegria, mas tem isso também. Vejo tantas vantagens, quero dizer, tantos privilégios em fazer o que eu faço; quem pode escolher alguma coisa pra fazer e sobreviver é um ganho, tem que agradecer todo dia, tem que reservar um tempo pra agradecer. Claro, você vai entrando nessa história de auto-imagem do músico, que é uma longa conversa, e essa coisa hollywoodiana que se criou e que imbecializou todos nós… Sabem aquela cena do filme do O dorminhoco, do Woody Allen? [ n.e.: Um dos primeiros longa-metragens do diretor norte-americano, de 1973 ] Em que ele acorda no futuro e pensa “Os outros são imbecis”. Então ele finge que é um robô pra que ninguém o descubra. E está servindo as pessoas numa festa. Existia uma bola em que você passava a mão e dava barato; era uma droga. Aí ele pega aquela bola, e vai dando barato, ele não consegue soltar, e descobrem que ele é uma pessoa, porque ele vai deixando de ser robô. Então o perseguem e o prendem. E aí vão imbecilizá-lo. A cena dele sendo imbecializado é perfeita. Ele passa por uma série de coisas, mas no final é ele (quem aparece), Woody Allen, com uma peruca, óculos, uma faixa de Miss Universo e flores na mão. E chorando, emocionado por ter sido escolhido Miss Universo. Mas é esse desejo do si mesmo que é muito inculcado no artista. É uma pena! Eu acho que só atrasa, só dá trabalho.
Max Eluard – E o mundo vem impondo isso cada vez mais.
Taubkin – Vem pra quem acredita, e aí eu volto naquela coisa da profissão quando eu era adolescente. Eu achava que aquilo estava caindo. Esse culto à celebridade não dura dois dias. E está ruindo de um jeito que, quem embarca nessa, coitado…
Max Eluard – Mas ainda é forte o culto a personalidade…
Taubkin – É forte, é forte, mas cada vez que você pega alguém que realmente se deu bem, em geral está pagando um preço, como a Britney Spears; ela devia ser um exemplo pra todos. Mas, por quê? Porque a barra é muito pesada. O que te cerca não é brincadeira. Ronaldo! É barra pesada.
Max Eluard – Chega uma hora em que o artista não consegue mais saber quem é ele, né?
Taubkin – E tem uma coisa muito engraçada: a gente vive uma espécie de paradoxo, porque pra eu viver da minha música, tenho que fazer com que ela seja relativamente conhecida. Como tudo na vida você tem que ter uma noção de equilíbrio: o que você quer que seja conhecido, por quem, quanto, a que preço? Existe uma equação. E tem um equilíbrio pra isso. Se você perde esse equilíbrio, em geral a frustração é a primeira coisa que vem. E aí você se transforma em vítima dos outros, porque são os outros quem vão te validar. E aí, meu amigo, pode se preparar pra terapia.

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