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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 16/34

A OMB não serve pra nada

Max Eluard – Dentro dessa consciência de classe, como você vê a OMB (Ordem dos Músicos do Brasil)?
Taubkin – Da pior forma possível. Acho terrível, terrível, terrível! Não faz sentido nenhum a existência da OMB. Sei que existem movimentos que até tentam reorganizá-la, mas por mim a OMB não existiria. Essa é a minha visão e posso explicar o porquê. A OMB é diferente de sindicato. A OMB é o conselho regulador da classe, que vai dizer quem pode ou não pode exercer (a profissão). Pois bem, a OMB dá carteirinha pra todo mundo. Se você for lá e pagar, você ganha (a carteirinha). Então, já não está regulando. Segundo: a OMB surgiu no fim do governo do Juscelino (1956-1961); era pra atender uma demanda de músicos eruditos. Tinha uma boa intenção, mas depois veio a ditadura, puseram um interventor e ele nunca mais saiu. Há profissões que você tem que regular o conhecimento; e o conhecimento é técnico. Por exemplo: um médico. Você tem que saber porque ele vai mexer numa pessoa. Um advogado tem que conhecer as leis. Agora, em uma atividade artística é muito difícil dizer quem tem ou quem não tem capacidade. O cordel: o cara é um gênio e não pega um instrumento. E não é músico? Isso é a primeira coisa. Segunda coisa: tanto faz se o cara toca bem ou mal, importa que música ele vai fazer. Isso você não pode dizer pra ele. A música nunca foi tão ruim, se você pensar industrialmente, e tanto faz se o cara toca bem ou mal. É quase como você falar “Você é um bom enfermeiro? Você sabe aplicar bem injeção?”. Mas vai pôr veneno e aplicar muito bem? Vai matar a pessoa. Então, era melhor aplicar muito mal. Como você não está discutindo conteúdo, e nem tem como, a OMB não serve pra nada, a não ser pra arrecadar o dinheiro. Ela vira uma polícia do músico, e interfere muito na questão da auto-estima.
Max Eluard – E arrecadar dinheiro pra ela mesma.
Taubkin – Esse é o problema das associações. Se uma associação não tem muita vida, se naquele momento ela não está envolvida em projetos apaixonantes, ela vira uma entidade em si, deixa de representar a classe, e passa a representar a si mesma, o seu interesse. Ela vira uma entidade.
Max Eluard – Só existe pra se sustentar, mais nada.
Taubkin – E ela suga dos seus. No fundo, a Ordem dos Músicos hoje vive quase da pressão (em cima) dos próprios músicos. Eu sempre manifestei contra, entrei com ação.
Max Eluard – Assinou aquele manifesto Fora da Ordem?
Taubkin – Assinei todos, todos. Não tem um manifesto que não assinei. Tem um lado importante nisso. Aí sim, vejo (essa participação como) classista, mas nesse sentido. Você tem que se manifestar… Fiz parte de um movimento que foi o da Banda Sinfônica, quando ela se posicionou contra a OMB há uns oito anos. [ n.e.: Mobilização contra a Ordem dos Músicos do Brasil capitaneada pela Associação dos Profissionais da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, que redigiu uma moção de repúdio em 2000. No ano seguinte, uma liminar isentou 80 músicos da banda do pagamento de anuidade da OMB ] Eu ia às reuniões. Quem estava muito presente nisso, por incrível que pareça, era o Célio Barros. [ n.e.: Baixista, técnico de som e astrólogo ] A gente se envolveu bastante. Claro, depois você não vai ficar o tempo todo fazendo isso, mas há momentos em que você participa mais.

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