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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 15/34

Eu não gosto muito da postura classista

Max Eluard – Nessa trajetória teve algum momento em que você se viu a ponto de desistir, algum golpe, ou a vida sempre lhe tratou muito bem?
Taubkin – Olha, são duas coisas, sou grato à vida, posso te dizer isso sem a menor dúvida. Eu sou completamente grato à vida, completamente. Teve um momento, mas que foi interessante, que foi quando parei de tocar à noite. Parei porque tocava num espaço muito bacana, uma ótima música, tocava com músicos que eu amo, entre eles o (baixista) Arismar (do Espírito Santo)… Em meu primeiro disco [ n.e.: A Terra e o espaço aberto, Núcleo Contemporâneo, 1997 ] tem um agradecimento especial ao Arismar, porque ele apareceu numa hora muito importante pra mim. Desde então tenho o maior carinho do mundo por ele. Havia o Lito, o Wilson Teixeira (saxofone), o Alex (bateria), o Cuca Teixeira (bateria) começando com 16 anos; era uma turma muito boa. Mas o que foi aconteceu naquele lugar? Ali havia três grupos tocando, muitos músicos, uns 15, 20 na casa. Tocava-se duas horas um grupo, duas horas outro grupo, duas horas outro grupo. Ali a gente fez um movimento por questões trabalhistas; era uma conquista. E eu sempre me envolvi em questões assim. É parte também do que eu fiz nesses anos todos. E numa hora, muitos dos músicos deram pra trás. E se perderam coisas. E pensei: “Eu não fico mais!”. Entendi que aquilo ia dançar. Eu pensei: “Isso não vai dar certo!”. Se isso estava acontecendo, eu já entendia que era um prenúncio de uma situação muito difícil pra quem tocava à noite, o que de fato aconteceu. Os espaços foram fechando. “Bom, se eu não vou tocar à noite, o que eu vou fazer?” E eu pensei: “Se não conseguir sobreviver de música, eu adoro livro, e talvez eu vá trabalhar numa livraria”. Mas tive sorte; comecei a fazer música instrumental e as pessoas me chamavam. Então eu toquei em seis, sete grupos diferentes de música instrumental, e eles tinham shows suficientes pra eu pagar as minhas contas. Claro, um grupo não daria, mas seis, sete davam. E eu passei a ser esse músico freelancer que as pessoas chamavam o tempo todo. “Ah, tem um som aqui, vamos fazer?” “Vamos!” “Tem um som ali, vamos fazer?” “Vamos!”
Max Eluard – Pra show ou pra estúdio também?
Taubkin – Show, nunca estúdio. Eu trabalhei muito pouco em estúdio até ter o meu próprio selo. Eu tinha umas eleições pessoais. Algumas coisas não consegui fazer, comojingle. Não consegui fazer… Tacioli – Tentou? Taubkin – Me chamaram um dia pra fazer, fiz. Profissionalmente me dei bem. Eu toquei tudo o que queriam que tocasse, mas, dependendo da leitura, posso ser entendido como um fundamentalista em certas questões, mas pra mim nunca foi esse o sentimento. Pra mim sempre foi uma questão diferente disso, porque nunca olhei feio pra alguém que faz jingle. De jeito nenhum. Eu sempre achei que é uma questão de eleição pessoal e também de uma questão de você estar conectado com você mesmo; quero dizer, “O que você quer? Por que você está fazendo isso? Você está precisando muito?” Meu filho estava passando fome? “Não!” “Mas o que eu quero mesmo? Por que eu fui ser músico?” Então enquanto der, eu continuo brigando por isso. Isso pra mim foi uma coisa muito presente. O que aconteceu no estúdio? Me chamaram pra gravar e eu fiz a parte do baixo no teclado. Eu pensei: “Estou substituindo um músico”. Então eu queria receber duas pagas. Nunca mais me chamaram, claro! As pessoas me acharam um louco.
Max Eluard – Por uma consciência classista?
Taubkin – É uma consciência de classe, sim, é, e talvez exagerada num determinado momento, mas é que eu estava muito imbuído dessas questões. Tive uma experiência muito importante e interessante poucos anos antes. Uma professora de Antropologia ou Sociologia da USP ia fazer um trabalho e precisava de um grupo muito desarticulado. E ela chegou aos pianistas da noite. E conheceu Osmar (Barutti), que hoje toca lá no (programa do) Jô. E o Osmar convidou músicos que tocavam à noite pra criarem um grupo que fosse uma espécie de grupo de estudo dela e de auto-organização. E eu consegui o espaço, e a gente foi. Era no MIS (Museu da Imagem e do Som) que a gente se reunia uma vez por semana ou a cada duas semanas. O grupo chegou a ter vinte pessoas. E foi uma experiência muito rica. Lembro de um dia em que um tocou piano para o outro; um não conhecia o outro tocando. Cada um sentou e tocou; coisas humanas muito bacanas. Isso foi fortalecendo essa coisa de “Puxa, estou aqui tirando o lugar de um músico!”. Era época que estavam surgindo esses equipamentos como os samplers que traziam uma preocupação. Bom, depois isso muda. Por isso eu falo, não sou fundamentalista, entendeu? É uma verdade daquele momento, naquela hora. E também não ia julgar um cara que no estúdio dele faz tudo; é um caminho. Você me perguntou da coisa classista, né? Eu não gosto muito da postura classista. Ela se fecha e se opõe a outras coisas.
Max Eluard – É, ela pode ter esse sentido, né?
Dafne – Mas, ao mesmo tempo, ela é uma outra consciência.
Taubkin – Isso! Esse equilíbrio é uma conquista. Se a gente olhar a história humana, as experiências humanas, ele (o equilíbrio) só pode se dar em liberdade. E tem quer ser uma espécie de estado de consciência de um grupo, que em geral se reúne por afinidade. Quando você tenta determinar comportamentos é muito difícil (que isso aconteça). E você cria um estado de polícia. Acho tudo isso muito delicado.
Ângulo – Patrulha, né?
Taubkin – Acho tudo muito delicado. O ideal é que você possa prover as pessoas e que elas tenham noção do que aquilo significa. É claro que, por exemplo, se você atingir hoje um montadora, as outras vão se sentir atingidas. Elas têm essa experiência. Elas concorrem entre si, mas vão se juntar. Essa é uma consciência, não é? Não é classista num sentido, mas eles perseguem os seus interesses naquele momento. Isso, às vezes, falta, e está mais ligado à auto-estima. (…) E aí não é somente como músico, essa é a questão. Essa é uma postura que você vai ter como cidadão, que você vai ter em qualquer coisa que faça. Por exemplo: se você encontrar um músico com uma postura classista muito forte – já conheci vários -, mas somente na área dele, muitas vezes ele é quase fascista, entendeu? E que é um perigo! Então tem que ter equilíbrio nessas coisas, muito equilíbrio. Tive sorte nesse sentido de não julgar o cara que não me quis contratar de novo. Entendi o que ele está vivendo. Só não queria…

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