gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 14/34

O imaginário do piano é como foi o do saxofone

Tacioli – E hoje em dia você tem vontade (de tocar novamente na noite) ou freqüenta alguns bares pra ouvir o que se toca?
Taubkin – Tiveram tantas coisas que aconteceram desde então. E uma delas, que vivo já há alguns anos, se deve ao fato de ter o selo. Muito também por causa do Mercado Cultural da Bahia, que é um projeto em que estou envolvido desde 2001. Antes teve o Itaú Cultural também. Desde 1999 ouço tanta coisa, de mil a 2 mil discos por ano; que vou para ver uma coisa muito específica. Eu não saio pra bar onde tem música. Se for conversar, prefiro sair pra um lugar onde não tenha música, porque senão vou ficar ouvindo a música. E aí prefiro conversar sem ter músicos tocando, porque me sinto meio mal. Eu sei que a expectativa que o cara tem, especialmente se ele sabe que você é músico, é que você o escute. E se você dá uma risada alta o cara pode se sentir… Eu prefiro conversar, conversar, e ouvir música, ouvir música. Mas, de qualquer forma, se vou ao restaurante é diferente, engraçado, né? Você vai num bar, piano-bar, o cara está lá na dele. Preste atenção quando você entrar em algum hotel. É que diminuiu muito esse tipo de espaço. Mas você vai ver que o cara está na dele, o cara não está nem aí. Ele está tocando e está tudo bem pra ele. É como cumprir uma função. Agora, eu tive a sorte de curtir muito cumprir essa função. Eu tinha 21, 22 anos quando comecei, e fui até os 30, trinta e poucos. Eu era o cara que ninguém tinha ouvido falar, que tocava num bar, que hoje poderia ser do Hotel Renaissance, mas era escondido, né? Então quando as pessoas me olhavam, pensavam “ Pô, que pena, o cara até que toca legal, podia estar fazendo…”. E eu feliz, contente de estar tocando, achando tudo o maior barato.
Ângulo – E quando tem um piano dentro de uma praça de alimentação de um shopping, por que você acha que acontece isso?
Taubkin – Eu acho que tem o imaginário do que é o piano, como o saxofone fez isso por uns dez anos, até ninguém agüentar mais.
Ângulo – Tem uma tirinha do Laerte que dizia “Eu adoro saxofone! O som nem curto muito, mas esteticamente eu acho do cacete!”.
Taubkin – Exatamente. É isso. Laerte é ótimo! Então, eu acho que o piano ocupa esse imaginário, ele dá um ar romântico como se fossem aquelas cercas francesas com algumas flores em volta do restaurante que não tem isso, entendeu? Não sei se vocês se lembram, no começo dos anos 90, criou-se aquela maquininha do piano que toca sozinho? E você entrava no lugar, e estava lá as teclas se abaixando e tal, né? [ risos ] E você assustaria um monte de gente com aquilo, dependendo da hora e do lugar. E é horrível aquilo, mas as pessoas punham porque faz uma função, né? Você nem precisava do pianista, se bem que aquilo morreu, porque realmente não tinha graça. Isso é uma coisa interessante pra pensar a música comercial: você precisa de algum toque de verdade, não dá pra ser tudo fake, alguma coisa precisa ser verdadeira. Eles tentaram fazer tudo fake… [ ri ]
Tacioli – Nem que seja a presença…
Taubkin – Isso, nem que seja a presença, com o cara emulando que está tocando e o piano toca sozinho, não sei. É engraçado se eu for falar o que acho, depende como o cara que vai tocar se sente, que tipo de repertório ele vai tocar e que tipo de respeito e tratamento das pessoas que o contrataram têm em relação a ele, entendeu? Claro, é sempre um exílio, ao mesmo tempo a música acaba em vários lugares e quando ela não está ocupando um lugar X, você sofre porque ela está num lugar Y, mas provavelmente se ela estivesse ocupando aquele lugar mais nobre, digamos X ou Y, ou mais amplo, não teria problema nenhum em estar nesse lugar aqui. É que, às vezes, na comparação, a gente fala “Poxa, ela tá aqui, mas não tá lá, onde poderia estar”. Não sei, mas eu acho que é muito pelo imaginário, entendeu?

Tags
Benjamim Taubkin
de 34