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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 12/34

Não é ir atrás de uma lei e vender um projetinho

Dafne – Ele estava no Me dá um mote?
Taubkin – Ele tocava baixo, era o contrabaixista do Edu. Tudo isso em 1973. Em 1974, a vida acontecendo, a vida rolando, um amigo falou – essas coisas de amigo de um amigo – que conhecia um cara que estava coordenando um movimento dentro da Secretaria de Cultura, na Prefeitura de São Paulo, e que seria legal falar com ele. Esse cara se chamava José Luiz Paes Nunes. [ n.e.: Músico, jornalista e produtor baiano (1933-87) responsável pela promoção de espetáculos ao ar livre em São Paulo, e nos anos 1970 um dos organizadores dos Primeiros Concertos de Inverno de Campos do Jordão, que geraram o Festival de Inverno de Campos do Jordão ] Um cara injustamente ignorado pelo que fez pela cultura. Ele tinha esse Movimento Mário de Andrade, tinha dirigido um movimento chamado Villa-Lobos. Ambos os movimentos muito criativos, quero dizer, é o que às vezes sinto falta quando a se fala de produção cultural. É a produção cultural criativa. Quero dizer, é igual fazer música. Não é ir atrás de uma lei e vender um projetinho. É pensar algo que faça sentido, que tenha vida e que signifique alguma coisa. E ele era um cara que pensava assim. Pra vocês terem uma idéia: esse Movimento Mário de Andrade, em 1974, era um movimento de música, cinema, artes visuais, dança, de uma série de coisas. Era um movimento mesmo. Ele fazia coisas como colocar no Parque do Ibirapuera, domingo, às onze da manhã, um pano que ia de uma ponta até a outra e tinta pras crianças pintarem. Ele pôs o Ballet Stagium dançando no meio do lago do (Parque do) Ibirapuera. Eles iam de barquinho até o meio do lago e dançavam. Ele fez uns shows de rock históricos em São Paulo, no Ibirapuera. Bom, era do Movimento Mário de Andrade. E ele começou os Concertos no Bosque. Ele teve a idéia de levar música pra dentro do parque, e começou, em 74, com música erudita aqui no Bosque do Morumbi, lá em cima. Não sei se vocês conhecem o Bosque do Morumbi, mas bem lá em cima, onde hoje está fechado. Alguém comentou e eu fui procurá-lo. Fiz uma proposta pra ele de fazer um dia com seis grupos de música instrumental. Começaria às onze da manhã, que era o horário dele, mas se estenderia ao longo do dia, seis grupos. Entre eles estavam o Edison Machado, a big band do Nelson Ayres, e fechava com o grupo do Hermeto (Pascoal). Isso foi – me lembro até hoje – (no dia) 1º de dezembro de 1974. Ele, surpreendentemente, não me conhecia, e topou. Topou, O.K., vamos fazer. Ele sentiu paixão; ele reconheceu isso. Às vezes vejo alguém e reconheço isso. Acho legal você estimular a pessoa, porque ela tem paixão. É o que chamo de animal cultural, sabe? Você vai vendo essas pessoas ao longo da vida. São pessoas que não estão se sacrificando, não, elas fazem com felicidade, mas é aquilo que elas querem fazer. Então, vieram os grupos no meio do parque, só que em vez de ser lá em cima foi (feito) embaixo. Tinha chovido muito, como choveu agora na noite anterior. Eu me lembro que o piano era nosso, não era nem alugado. E o caminhãozinho que ia levar o piano não entrava no parque. A gente levou (o piano) na mão. Oito pessoas com o piano… Era tudo feito assim. Eu lembro que o jornal, O Movimento deu cartaz pra gente; a gente fez um cartaz. E aí começou uma coisa que, pra mim sempre fez muito sentido, que era sair pela cidade colando cartaz. Então havia uma coisa de cultivar aquilo que vai acontecer. Era feito muito artesanalmente como se cozinha uma comida, né? “Agora vamos pôr esse tempero, vamos colar cartazes…”, então o concerto vai tomando vida.
Max Eluard – Ele começa antes.
Taubkin – Muito antes, e é muito legal, porque você já está vivendo ele. Bom, ele aconteceu e deu muito certo. Acabou à noite, que não era a idéia, mas aí se acendeu uma fogueira, e o Hermeto tocou a luz de fogueira. E foi lindo! Você pode imaginar o que foi. E aí o cara me chamou pra trabalhar com ele. Foi aí que eu entrei na Secretaria de Cultura e coordenei esse movimento, esse concerto no parque, que se expandiu pra outro parque, que era o Jardim da Luz, onde a gente fez mais choro. Jardim da Luz ficou mais um lugar pra choro e samba tradicional. Depois aconteceu uma coisa muito bacana. Sei lá, eu tive uma idéia e fui conversar com o cara do Teatro Municipal, que na época era o Maurice Vanneau, um mímico que dirigiu o Teatro Municipal. [ n.e.: Ator, diretor, mímico, figurinista, cenógrafo, artista plástico e dançarino belga naturalizado brasileiro (1926-2007) que dirigiu, nos anos 1950, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) ] Ele topou e a gente começou um projeto de música instrumental, toda sexta feira, meia-noite no Teatro Municipal. Chamava-se Sessão Coruja. O nome não era muito feliz, mas tudo bem. [ risos ] O projeto foi muito bacana; ele aconteceu em 75, 76, toda sexta-feira à meia-noite no Teatro. Você quer uma almofada?
Tacioli – Não, não!
Max Eluard – Eu queria ligar numa tomada.
Taubkin – Está vendo essa atrás de você? A primeira deve ser a luz, mas as outras…
Max Eluard – Obrigado.
Taubkin – E ali tocou muita gente. E foi uma experiência muito bacana, porque primeiro era sexta-feira à meia noite no centro da cidade. Mas o centro ainda era o centro, ele tinha vida, as empresas estavam lá. Tem uma coisa engraçada: hoje em dia o centro é o lugar onde você vê menos pessoas de gravata. Uma coisa curiosa quando você pensa na história da cidade, que onde tinha mais gravata era no centro.
Tacioli – Hoje é na Berrini. [ n.e.: Avenida Luiz Carlos Berrini, zona sul de São Paulo ]
Taubkin – É, porque faz parte do egoísmo da cidade, do egoísmo dessa elite que quando um lugar fica difícil, em vez de resolver ali, vai se mudando. É muito triste.
Max Eluard – Ou esse processo de revitalização do centro…
Taubkin – Que vai limpando. Eu acho que tem que ter projetos, quer dizer, claro que você tem que fazer alguma coisa que não pode deixar aquilo, mas tem que ter um projeto pra tudo aquilo.
Max Eluard – Não dá para jogar debaixo do tapete.
Taubkin – Lógico, lógico. Senão alguém está dançando em outro lugar, também. Então tudo isso acontecia ao mesmo tempo: tinha música no parque, depois música no Jardim da Luz, música no Teatro Municipal, e aí a gente começou um terceiro projeto que foi música em museu, que até então quase não existia. O MIS estava sendo inaugurado naquele ano junto com o Paço das Artes, então propus que a gente fizesse música ligada à exposição, e também deu super certo. Numa exposição temática sobre Brasil – na época tinha o Marcus Pereira e seu selo [ n.e.: Discos Marcus Pereira ] – eu o convidei e ele fez o (Quinteto) Armorial numa semana, Os Tapes, do Rio Grande do Sul, na outra, e assim foi… Foi uma experiência muito bacana nessa área, poder pensar e fazer essas coisas. Até a hora em que falei “Não, vou fazer somente música!”. Pra mim havia uma contradição entre tocar e fazer aquilo. Eu queria me dedicar a fazer música somente, e foi o que fui fazer.

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