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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 11/34

“Precisamos fazer alguma coisa pela música brasileira!”

Dafne – Você falou do América Contemporânea, da América Latina… A gente podia voltar um pouco pra esse lado produtor-agregador.
Taubkin – Foi uma coisa meio fortuita. Com 16, 17 anos tinha um amigo músico, mas que acabou se dedicando à publicidade, que se chama Lino Simão. Lino Marques Simão, saxofonista. [ n.e.: Integrou a Banda Metalurgia ] A gente era amigo de escola, estudamos juntos e éramos irmãos, de conviver todo dia juntos. Ele tocava flauta-doce e por ele conheci Bach; e tocava cravo, um pouco, e tocava piano. E o pai dele resolveu dar um dinheiro pra ele começar algum negócio. Isso a gente tinha 16, 17 anos. Eu me lembro que a gente foi ver loja de surf. Ele me convidou pra entrar no negócio junto com ele. E ele surfava… [ risos ] Então a gente foi ver loja de roupa de surf, essa era a primeira idéia. Eu me lembro que a gente foi na Alameda Franca, nesses lugares, ver ponto, sabe? Ponto de loja. [ risos ] E aí a gente descobriu que pagava ponto e que o dinheiro não ia dar. “Então, o que vamos fazer com esse dinheiro?” Ficávamos sentados horas na minha casa pensando o que a gente faria. “Escuta, por que a gente não produz show dos grupos que a gente gosta e que deviam ter mais espaço?” “Ah! Legal, vamos fazer!” E aí a gente fez o primeiro. Eu me lembro que foi no Colégio Rio Branco, onde ele estudava. Eu havia estudado no ano anterior, porque nessa minha rebeldia eu trocava todo ano de escola. Mas ele estudava ainda lá. Aí a gente resolveu organizar um show. Eu tinha uns 17 anos. E a gente convidou o Som Imaginário, que na época era o grupo do Milton (Nascimento), mas as pessoas não conheciam como Som Imaginário. Acho que eles não tinham feito como Som Imaginário nenhum show em São Paulo. Eles toparam e vieram. E foi muito engraçado, porque nunca havia produzido um show, não tinha a menor idéia… Mas a gente foi com a cara e coragem. No dia anterior ao show, estava descolando o som, porque percebi que precisava de som. Esse tipo de coisa… Eu me lembro (de estar) na Vila Madalena – que não é o que é hoje; havia somente casinhas – desesperadamente buscando um som. A gente fez um acordo com eles surreal: 80% pra eles e 20% pra gente, sendo que a gente pagava passagens [ risos ]. Bom, o que aconteceu? O show lotou, porque a gente foi de classe em classe na escola e falava “Vocês têm que ver! É muito legal!” E as classes foram e o show lotou. Tinha cerca de 800 pessoas. Nesse sentido deu muito certo, né? Lotou! Eles trouxeram o Dominguinhos, que ninguém conhecia aqui. E o Dominguinhos cantou com eles “Lamento sertanejo”. Foi um concerto lindo; foi o maior barato! E era o Wagner Tiso (piano e órgão), Fredera (guitarra), Nivaldo Ornelas (saxofone), Luiz Alves (baixo) e Robertinho Silva (bateria). Era esse o grupo. Bom, o que aconteceu? Lotou e a gente teve prejuízo! Então o Lino falou: “Bom, não dá pra gente trabalhar nisso”. “Realmente não dá, não faz sentido. Ele perdeu dinheiro”. E o empresário do Milton, na época um cara chamado Benil Santos [ n.e.: Compositor, radialista, produtor e empresário artístico fluminense ] me chamou pra uma reunião no Rio de Janeiro porque ficou encantado [ ri ] e queria saber se queria trabalhar com o Milton. Se o Som Imaginário lotou desse jeito e deu uma grana, imagina o resto, né? Quero dizer, pro cara apareci como um negócio do além. Eu me lembro que fui ao Rio, não tinha 18 anos, ter reunião com o empresário do Milton Nascimento. Pra mim era um filme. Eu estava vivendo um filme. Aí embaixo encontrei o Márcio Borges, “Ó, esse aqui é o tal, prazer”. Eu estava ali vivendo um filme, era muito engraçado tudo. E eu peguei um avião pra ir pro Rio… Bom, essa foi a minha primeira experiência, mas fui mordido, sabe? O bichinho tinha picado. Aí eu quis fazer de novo e comecei a pensar coisas. Eu era amigo do Ricardo Silva que morava perto da minha casa, cujo pai era dono das escolas Yázigi. E eles moravam numa casa que era uma experiência: chão branco, pavões, tenda árabe, piano de cauda.
Max Eluard – Parque temático.
Taubkin – Total! Era surreal e muito bonita, porque ele era colecionador de arte contemporânea. A casa era um negócio inacreditável. E tinha um monte de festas e coisas assim. E era um lugar onde a gente freqüentava quase todo dia numa época. Era o ponto de encontro dos amigos. Me lembro que estava tendo um desses festivais, acho que da Globo. Ele disse: “Precisamos fazer alguma coisa pela música brasileira!”. “Vamos produzir uns concertos então.” E essa foi minha segunda experiência. E aí a gente fez três concertos. Na época não existia lei de patrocínio, era vontade pessoal. E a gente fez três concertos: do Gonzaguinha – eu liguei pro Gonzaguinha, ele topou e veio -, da Parafernália – um grupo de música renascentista no Mosteiro de São Bento à luz de velas; foi o maior barato! – e um negócio muito grande pra experiência que eu tinha naquela época, que era a nova peça do Edu Lobo e do Gianfrancesco Guarnieri que se chamava Me dá um mote [ n.e.: De 1975 ]. O Guarnieri escreveu um texto e o Edu Lobo musicou. E a gente fez no teatro da GV (Fundação Getúlio Vargas). E aí aquilo foi grande demais! Era uma produção que eu realmente não entendia o que estava acontecendo [ ri ], mas tudo bem, fizemos. Há um tempo – uns três, quatro anos – encontrei o Maurício Maestro, do Boca Livre, no show que a Orquestra (Popular de Câmara) fez no Rio de Janeiro. O Maurício olhou pra mim e falou: “Você é aquele cara que…”. Nossa, ele ficou tão emocionado, foi um negócio tão bacana, porque tinha 18 anos…

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