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Entrevistas de música brasileira

Benjamim Taubkin

O pianista e produtor Benjamim Taubkin. Foto: Fernando Ângulo/Gafieiras

Benjamim Taubkin

parte 9/34

O Vinicius e o Jobim não aconteceriam hoje

Dafne – Isso vem de uma experiência coletiva da música?
Taubkin – Isso vem muito de experiência coletiva quando você encontra 10, 15 músicos que tenham essa preocupação, quando isso passa a ser uma conversa valorizada. E eu era, em geral, o mais novo nesses lugares, então ficava ouvindo. E aquilo pra mim fazia muito sentido. Então eu tive uma imersão. Dos 18 aos 21 anos, que foi o tempo em que morei nessa casa, tive uma imersão nessas questões de música. Músicos vindos do Rio passavam por lá; músicos que vinham de Belo Horizonte passavam por lá. E era uma época… Outro dia eu vi um filme do Vinicius [ n.e.:Vinícius, filme de 2005 dirigido por Miguel Faria Jr. ], vocês viram? Bom, foi engraçado porque eu vi esse filme com as pessoas do (grupo) América Contemporânea. Fomos todos assistir. Saí do cinema pensando assim: “Caramba, o Vinicius e o Jobim não aconteceriam hoje, talvez. Eles são de outra época”. E me lembrei exatamente dessa convivência que a gente tinha lá. Quero dizer, o tempo era outro. Não existia projeto. A música deles aconteceu porque aconteceu naturalmente. Não existia: “Eu vou submeter o projeto a alguém, apresentar pra lei tal ou vou fazer isso”. Era orgânico. O cara poderia passar o dia inteiro sonhando, bebendo, porque se a obra dele está lá, ela vai. Ela naturalmente vai. Por isso que se tem hoje – e isso é uma outra longa discussão -, os órfãos dessa época, no sentido que as pessoas falavam “Ah, ninguém me procura”. Não vai procurar! Isso é de outra época. Estou falando isso porque ali (naquela casa) a gente passava o dia inteiro tocando, ia ao bar, voltava, ficava conversando; não tinha pressa. Não tinha pressa…
Tacioli – Mas isso também não é atrelada à juventude?
Taubkin – Não, porque eles eram mais velhos. Eles tinham filhos. Eu tinha 18, 19 anos. Muitos tinham 30.
Dafne – É da relação com a música mesmo.
Taubkin – Da relação com a música com o tempo. A maioria deles tocava na noite. Ou então os músicos do Rio, como o Nelson Ângelo, Danilo Caymmi… Na época era tudo mais comunitário. Tinha um baixista mineiro, o Fernando Leporace. Estou falando de pessoas que não eram de São Paulo. Daqui talvez o músico mais importante pra todo mundo era o Edison Machado [ n.e.: Exímio baterista carioca (1932-1990) projetado no auge da bossa nova. Integrou grupos como Rio 65 Trio, Bossa Três e o Sexteto Bossa Rio ]. Ele aparecia lá às vezes.
Max Eluard – Mas ele era do Rio.
Taubkin – Do Rio, mas ele morou aqui. Ele é de Niterói. Morou fora muito tempo. Então eram músicos dessa geração. Depois, muitos não se adaptaram ao que aconteceu ao mundo. E sofreram muito.
Max Eluard – Isso nos anos 1960.
Taubkin – Setenta. E sofreram bastante nos anos 1980, logo em seguida. Oitenta foi o corte. Acho que eles sofreram muito a partir de 80. Uma geração que foi vítima da ditadura. Quero dizer, você tinha a bossa nova e todas essas outras situações de rádio e televisão que privilegiavam a música brasileira. Depois quando chega a jovem guarda, o rock, esses músicos foram exilados pra bares, boates. Isso pra eles foi muito estranho. Eles não entenderam o que estava acontecendo.
Dafne – Gente que estava sempre na TV.
Taubkin – Exatamente. De repente o cara do trio não-sei-o-quê – Samba Três, Bossa Três – estava tocando na Baiúca, no Padock, que eram bares, restaurantes. Eu achava aquilo o máximo! Tem uma cena do Round midnight, vocês assistiram? [ n.e.:Ambientado em Paris dos anos 1950, o drama de 1986 dirigido por Bertrand Tavernier mostra a trajetória de um saxofonista, interpretado pelo jazzista Dexter Gordon (1923-1990), e de um apaixonado por jazz ]
Dafne – Do Dexter Gordon? [ n.e.: Por sua atuação no filme, o saxofonista norte-americano foi indicado ao Oscar de melhor ator ]
Taubkin – O francês que fica do lado de fora ouvindo Dexter Gordon porque não tinha dinheiro pra entrar… Eu fazia exatamente isso. Com 19 anos, eu ia à Baiuca e ficava do lado de fora ouvindo os músicos que eu gostava tocando baixo acústico e piano. Eu não tinha dinheiro pra entrar. Eu achava o máximo! Tanto que, quando fui me profissionalizar como músico, uma das coisas (que queria) era tocar na noite. Tinha uma imagem romântica daquilo.
Tacioli – E hoje não tem mais.
Taubkin – Tenho a mesma imagem romântica que tinha dos anos que vivi. Foi um aprendizado maravilhoso; toquei com pessoas incríveis que ninguém conhece, que são grandes músicos.
Tacioli – Quem, por exemplo?
Taubkin – São infinitos. Se eu te falar baixista – eu ao piano – toquei com o Matias, toquei com Monjardim, com o Lito Robledo, com o Luizão – não o do do Rio, mas o de São Paulo.
Max Eluard – E eram músicos da noite.
Taubkin – Músicos que tocavam à noite porque não tinham outra perspectiva. Alguns tocam até hoje, alguns já faleceram. E são bons músicos. Músicos muito bem preparados. Aí tem a questão filosófica: o mundo onde eles estavam, o mundo onde eles se viam os colocou naquela situação e eles não viam outra possibilidade. Pianistas tinham vários, bateristas vários. Eu toquei com um cara, o Tatá, um ótimo baterista. Tinha um cara chamado Ari… E falando de música brasileira. São muitos músicos.

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