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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 8/32

Fui sargento do Exército na época da Guerra

Tacioli  Seu Vieira, nos anos 40 o senhor participou dos Anjos do Samba, um quinteto?
Vieira  Eu fui sargento do Exército na época da Guerra. Fui convocado. E lá eu fiz ligações com alguns músicos desse grupo, os Anjos do Samba. Aí eles vendo a minha habilidade como compositor, não como músico, como compositor, me convidaram pra participar desse grupo. E eu estive com eles vários anos. E foi uma época muito boa. Eram cinco rapazes muito bons. Lamentavelmente nós não gravamos nada na época. Agora, trinta anos depois, fiz parte de um trio. Com ele eu consegui gravar. O JB Trio. Dois já morreram. Os mais novos já morreram e eu, o mais velho, estou vivo, estou teimando em viver. [risos] Grandes músicos. O Jorge Barros, que era o diretor, violonista e arranjador; e Oton Santos, que era o percurssionista. Foi muito bom o trabalho. Disso eu ainda tenho um disquetezinho. A gente pode ver o nível. O nível nosso era o nível do Trio Los Panchos, aquela história. Era um trio daquele estilo.
Tacioli  Vocês cantavam o quê?
Vieira  Música brasileira, música maranhense, mas naquele estilo de vocalizar, né?
Seabra  E alguma coisa sua já?
Vieira  Sim, muitas. Eu ainda consegui sete músicas, das quais há uma ou duas músicas instrumentais. Para a abertura botamos, por ser maranhense, a música de Nonato Buzar, que era: [canta] “Manhã despontando lá fora / Manhã já é sol, já é hora”. Da novela Irmãos Coragem, era a abertura musical desse trio. Naquele tempo chamava-se de característica, “A característica do grupo etc. e tal”.
Tacioli  Seu Vieira, do quinteto Anjos do Samba, nos anos 40…
Vieira  42.
Tacioli – (…) tem alguma história interessante dessa época?
Vieira  Olha, eu tenho a história de como fui colocado lá. Era um quinteto que trabalhava já na rádio Timbira do Maranhão, a primeira rádio que o Maranhão teve, rádio governamental. E um deles precisou se mudar para o Rio de Janeiro, porque vinha com a família. Então ficaram quatro. Precisava de um elemento. Um dos rapazes do grupo, chamado Luís Sampaio, violonista, hoje falecido, vendo a minha capacidade de como compositor e como percussionista me convidou pra participar do conjunto. “Rapaz, não quer fazer parte do conjunto?” Eu disse: “Rapaz, isso dá muito trabalho, muito ensaio”. “Não, mas isso é assim mesmo, não é demais. Tu vai encontrar já a comida temperada, vai só entrar.” Tanto chatearam que eu entrei. Aí fui pro teste musical, porque o diretor artístico do conjunto era um grande cantor do Maranhão, um grande pianista, chamado Nilzinho Santos. Aí me botaram lá e escolheram uma música, senão me engano era: [canta] “Por que bebes tanto assim rapaz?” Aí: “Vamos ver se seu ouvido é bom. Conhece essa música? ‘Por que bebe…’” Eu disse: “Eu não conheço a música, mas uma ou duas linhas eu conheço. [canta] “Por que bebes tanto assim rapaz / Chega já é demais.” Ele tchan no violão e eu pá. Aí foram mudando de tom, né? Depois começaram a meter meios tons e eu tã tã. Aí meteram tom menor. E eu digo: “Não dá, essa melodia não tem letra, não entra tom menor”. Aí foram ver que eu tinha ouvido pra música. “É, pode tomar parte.” Aí disseram: “Toca um instrumento?”. Eu não tocava nem berimbau. “Eu não toco instrumento nenhum.” “Ah, rapaz, então não pode. Para o conjunto vocal tem que cantar e tocar.” “Vamos começar com um instrumento fácil.” E me deram um afoxé. “Leva o afoxé pra casa, vai cantando e tocando.” Aí em casa eu fiquei como um louco, né? Tan tin tan tin [risos] O Riachão está achando graça porque sabe que o mal do principiante é sofrer, né? Minha irmã dizia em casa, “Rapaz, está ficando louco?” E eu tin tin tin tin. Mas dentro de uns quatro dias eu dominei o instrumento. Eu fiquei tão bom nesse instrumento que o melhor do conjunto era pior que eu. Eu tocava bolero, samba, rumba e música americana… O que botava no afoxé eu tocava. Fiquei craque no instrumento! A persistência, né? Dizem que a persistência, faz a perfeição. Eu fiquei perfeito no instrumento. Fiquei sendo respeitado como músico de afoxé.
Seabra  Isso com vinte e tantos?
Vieira  Eu tinha 23 anos quando comecei a tocar. O violão aprendi depois de velho. Vou contar a história do violão. O que eu sei de violão é muito pouco. O violão só pra me acompanhar. Aí, eu pedia pros outros: “Me acompanha em música tal?”. O camarada dizia, “Ah, rapaz, só se tu me der tanto. Pague ao menos uma cerveja aí”. ” Ah, muito bonita sua música.” Outros diziam: “Ah, rapaz, mas tu é chato. Hoje não dá. Somente amanhã”. Teve um dia em que eu disse: “Rapaz, vou aprender a tocar isso.” Eu já estava com 50, quase 60 anos. “Burro velho não aprende a marchar, rapaz, é difícil”, disse um músico do regional da rádio. “Mas não um burro da minha marca, rapaz. Sou um bocado teimoso.” Aí arrumei um violão velho e sentei e comecei. Tin nin nin. Hoje toco alguma coisa. Meu violão é muito simples, eu não toco arranhando como os cabeludos tocam [risos], toco arpejando, compreendeu? Hoje cabeludo toca dando pancada no instrumento. Eu gosto de ver o arpejo.

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