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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 5/32

Meu tempo era esse mesmo!

Tacioli  Seu Vieira, o senhor acha que demorou muito tempo pra sua obra ser conhecida?
Vieira  Não, eu acho é o seguinte: nós morarmos no extremo Nordeste, que é muito mais longe do que a Bahia, que está bem aí. O Maranhão está no extremo Nordeste. Aí é difícil, com pouco recurso técnico e sonoro que nós temos. Por isso demorou. Não foi falta de qualidade musical. Distância. Foi mais numa época em que praticamente a minha música estava no apogeu, com 20, 30 anos, não existiam recursos sonoros e eletrônicos que tem hoje. Então era difícil. Ou o sujeito fazia um LP, 78, aquela agonia, e lá não tinha estúdio pra isso. Então se tornava difícil, né?
Seabra  Mas quando o senhor tinha 30 anos, isso na década de 50, o senhor chegou a correr atrás de fazer virar uma carreira musical?
Vieira – Não. A primeira viagem que eu fiz ao sul do Brasil foi com o Chico Maranhão, que é um grande compositor no Maranhão, que tomou parte em festivais aqui no sul. E ele me trouxe. Nós passamos 15 dias em São Paulo, 15 dias no Rio, com um show chamado Escravo do coração. Eu me lembro que, na época, era o Governo Maluf. O Maluf era o governador e candidato a Presidente da República e trouxe gente do Amazonas até o Rio Grande do Sul para São Paulo. E eu vim nessa leva. Já era velho, mas eu vim porque eu era percussionista, toco um bocadinho de violão, cantava o que eu canto hoje. Então, o Chico me inseriu. “Ô, Vieira, tu é útil, tu vai como percussionista.” E eu vim como percussionista. E nessa época, eu fiz amizade no Rio de Janeiro, com o maestro Roberto Nascimento, que ainda deve estar vivo. E ele ouviu uma música chamada “Cocada”, que é um sucesso meu, e ele então disse: “Você vem morar aqui no Rio?”. Eu digo: “Não, porque sou funcionário público, e não posso abandonar o cargo, porque se amanhã eu fico velho, vou tirar esmola. Se eu não me aposentar, eu vou morrer de fome, porque o velho que perde a capacidade de trabalho é considerado lixo, lixo social. Essa que é a verdade!”. E eu não fiquei. Mas ele me disse: “Vem ao Rio que eu quero ser o seu padrinho.” Eu encontrei o Monarco, da escola de samba do Rio, num trabalho que eu fiz para Adelzon Alves. [n.e. Jornalista, radialista e produtor paranaense nascido em 1939] Monarco viu e disse: “Você vai ficar no Rio?” Eu disse: “Por quê?” “Se você quiser, eu te levo lá pra minha escola de samba.” Se não me engano é a Portela. “Não, eu não vou ficar no Rio. Sou funcionário público do Estado.” Quero dizer, tive essas duas oportunidades de vir, mas, se aventurasse, eu poderia ser um vencedor ou um derrotado, e eu não gosto de jogar no escuro, né?! Eu jogo no claro.
Tacioli  O senhor não se arrepende, Seu Vieira?
Vieira  Não, eu acho que eu cheguei no tempo. Meu tempo era esse mesmo. Agora eu digo uma coisa sem a vaidade: eu sempre acreditei no meu trabalho, porque as pessoas que entendiam de música, diziam, “Tem talento”. O maestro Copinha, que já morreu, flautista, uma vez olhou meu trabalho, uma composição chamada “Poema para o azul”, disse: “Meu filho, pare aí que eu quero te acompanhar!”. Pegou a flauta. Fui cantando e ele fazendo contracanto. Ele disse: “De quem é essa letra, meu filho?” Eu digo: “É minha”. “De quem é essa música?” “É minha.” “Você é um compositor do Brasil. O Brasil ainda vai conhecer o seu trabalho.” Copinha é um grande músico, né?
Tacioli  Quando foi isso?
Vieira  Há uns oito a 10 anos. Nesse tempo o Raphael [Rabello, 1962-1995] estava com 17 anos. Quando foi para o Maranhão, foi com Copinha, João Pedro Borges, Turíbio Santos, um baterista negão chamado Chaplin. Quem foi mais? E uma cantora que eu não me lembro o nome. Eles ouviram o meu trabalho e todos acharam que o trabalho era bom. Raphael no violão; estava novo, mas já com uns 18 a 19 anos.

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