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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 32/32

Por um dedo se conhece o gigante

Tacioli  Seu Vieira, e o que o senhor espera desse show de hoje, desse encontro?
Vieira – Acho que vai ser de alto nível. O Riachão tem história, tem música simples e bonita. Eu vou fazer a minha parte, vou fazer o que posso. O meu repertório foi escolhido pelo Zeca Baleiro. Nós ensaiamos ontem. Espero que agrade a todos vocês. O Riachão vocês já conhecem. Eu sou meio desconhecido. Mas por um dedo se conhece o gigante, né? Então vocês vão ver a minha obra pra ver o meu tamanho.
Tacioli  Seu Vieira e Riachão, vou fazer a última pergunta pros dois. Pra vocês que são da mesma geração, existe alguma semelhança entre a música produzida no Maranhão e na Bahia? Em encontros como esse, o que salta?
Vieira  Eu não vejo praticamente diferença. Tem estilos diferentes. Samba é samba em toda a parte do Brasil. Só não é a da nova turma que samba-rock, samba-reggae, samba-rap, samba-não-sei-o-quê, que afinal de contas, de samba não tem nada, mas o que estamos fazendo é samba. Quando é samba é samba.
Riachão  É isso.
Vieira  Vou mais adiante. Está surgindo aqui uma música sertaneja moderna. Isso não é música sertaneja, não.
Riachão  Pois é isso.

Vieira  A música sertaneja daqui ainda tem uma Inezita Barroso. Ela está no rumo. Como fazia a nossa Milu Melo. Como fazia Xavantinho e o outro menino. Essa é a música sertaneja, como temos a música sertaneja da nossa região, mas como diz o outro, cada um tem um gosto. O culpado disso é o poder público, porque se cada escola tivesse um pequeno sistema de som, e no recreio das crianças, elas ouvissem a música popular brasileira, não tinha essa invasão. Se o sujeito liga o rádio e é só rock; no Maranhão é reggae. É o mal dos erres. O que acontece? A criança não é culpada. Ela vai crescer e aprender a tocar um instrumento, ela toca essas músicas. No Maranhão não se ouve música popular brasileira. Tem apenas uma rádio que é universitária em que se ouve música maranhense, o resto é só música importada. O menino vai crescendo, o que ele vai produzir?
Riachão – E aí?
Vieira – Se ele aprender a ser jerimum, ele vai ser jerimum, não vai ser cabaça. Mas se ele aprendeu a ser cabaça, ele não vai virar jerimum, é cabaça mesmo! [risos] Gostaram da comparação?!
Riachão – Taí.
Vieira – Nós fazemos o que nós ouvimos. Somos a nossa própria mente que tomou forma. Tudo o que aprendemos na nossa infância, na nossa educação. Deveriam separar educação da instrução. O que você recebe de educação você passa para seus descendentes… Como eu digo: o homem é o que ele recebeu. Então, a parte musical é a mesma coisa. Se você só ouve música estrangeira, você não vai fazer a sua música que você nem conhece. É preciso que se eduque musicalmente esse país. Nos colégios, por esse sistema de som… E a imprensa. Infeliz do povo que perde a sua cultura.
Riachão  Eu fiquei feliz quando soube que em todo Brasil se cantava a música de Riachão, porque o rádio apoiou, vendo na voz do meu grande amigo, que Deus já levou, o Jackson do Pandeiro, na voz do Trio Nordestino, então todo, todo, todo o Brasil tocou. Eu fiquei feliz com isso, porque era uma música sertaneja que se chamava música ”São Joanina”. [canta] “Rosinha vai com João / Chiquinha com Mané / Eu vou com a Buchechuda / Pra dançar o arrasta-pé / Rosinha vai com João / Chiquinha com Mané / Eu vou com a Buchechuda / Pra dançar o arrasta-pé / A moçada vai gritando / Acorda João / E as crianças vão gritando / Acorda João / As veias vão gritando / Acorda João / Quero ver tudo juntinho / Dançando num só rojão / Rosinha vai com João”. Isso eu vi que toda imprensa dizia que o Brasil todo estava tocando, toda escola cantava “Buchechuda”. Quero dizer, é o mesmo que a gente está dizendo: se toda essa gente botasse a música nossa, brasileira, pra tocar as coisas do nosso querido país, as criancinhas não iam pegar uma outra. Todo mundo gostava de “Buchechuda”.

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