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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 31/32

Ô, Deus, o sapateiro matou o alfaiate!

Tacioli  Riachão, gostaria de saber a expectativa com relação ao show de hoje. Esse encontro com o Seu Vieira é inédito, vocês no mesmo palco…
Riachão  Vai ser, sem dúvida nenhuma, uma apoteose para mim. Vai ser uma alegria, um entusiasmo, porque vou estar no palco com um da velha guarda do Maranhão, o grande Vieira. E estar num palco em São Paulo, cantando, brincando, levando alegria pra o nosso povo paulista, é uma grandeza pra mim, eu que sou da Bahia, e isso junto com o nosso simpático, queridíssimo, inteligentíssimo, grande artista, o Antônio Vieira; é Antônio, né? Antônio Vieira. E falando em Antônio Vieira eu me lembrei de lá do meu Garcia, que tem o colégio Antônio Vieira, e nesse Antônio Vieira. A gente fica conversando e vai lembrando de certas coisas alegres e tristes. Agora falando de Antônio Vieira eu me lembrei de quando mataram o meu colega. Foi um samba que foi tristeza, lágrimas, mas são coisas que aparecem na vida artística. Defronte ao colégio Antônio Vieira, a gente tomando cachaça, cá em cima no Garcia, ali na entrada da rua de minha casa. Aí todo mundo no bar bebendo, bebendo… Mas tinha uma fasezinha de escuridão, o blecaute, e aí não podia acender luz, não sei se era por causa de guerra, não sei que diacho era. Ficava tudo no escuro. Havia um pinguinho de luz pra se andar. Aí era todo mundo tomando cachaça. Mas na cachaça o diabo sempre está no meio. [risos] Resultado: nós nos despedimos, cada um pra seu canto. Eu desci pra minha casa, os outros malandros desceram pra rua do Baú, e outros malandros subiram pro Garcia, que é realmente onde tem o colégio Vieira, e eles moravam ali no Sabino. Havia uma tendinha de sapateiro bem defronte ao colégio Antônio Vieira. Um era sapateiro e o outro era alfaiate. Resultado: quando eles chegaram lá em cima, nasceu uma discussão, não sei por quê. Já saíram tudo cheio de cachaça, cada um pra sua casa, mas a cachaça é assim mesmo, o diabo está no meio… E, armada a discussão, não é que ele matou o outro. Ô, Deus, o sapateiro matou o alfaiate! Que tristeza! Um corre-corre. Aí correu o boato, o Garcia soube, meio mundo já tarde da noite, eu saí correndo com outros amigos e fomos lá pro Garcia. Tudo no escuro. O corpo já estava lá. O malandro apeou no mundo. O alfaiate estava lá no chão. Se arranjou um lençol pra cobrir. Aí os comentários porque isso, porque aquilo. São pequenas coisas que acontecem na vida da malandragem, da orgia, de bom e de mal. Agora sabe o que aconteceu? Esse malandro, somente por ouvir um samba, morreu. A Rádio Sociedade da Bahia fazia uns programas em tudo quanto era lugar. Tinha a Rádio visita a sua casa, tinha Carnaval nos bairros, tinha tudo isso. Era quem distraia o povo baiano era a Rádio Sociedade da Bahia. E ela ia pra todo lugar e levava esses malandros pra cantar. E levou a turma do rádio pra cantar na penitenciária lá do Largo do Santo Antônio. E quando eu cheguei lá – eu não sabia que ele estava preso ali, se eu soubesse eu não cantava, não. Aí quando chegou a hora de Riachão – foi um programa para os presos assistirem –, não é que ele estava ali? Vim saber isso depois. E quando chega a hora de Riachão, Riachão que era o Cronista Musical, tudo que acontecia jogava no ar, na base do samba, aí jogou no ar [canta e batuca]: “Mataram meu colega / Companheiro de confecção / Matou, matou sem dó / Sem razão / E deixou no chão / Ô, meu Deus / Misericórdia / Mataram meu colega / Companheiro de confecção / Matou, matou sem dó / Sem razão / E deixou no chão / O passeio da padaria Moderna é testemunha / Porque tomou parte / A escuridão desse local é quem tem culpa / Da morte do alfaiate / Mataram meu colega / Mataram meu colega (…)”. Então eu cantei esse samba (…) e tudo era preso, matador, assassino, compreendeu? [risos] Aí, ele estava ali assistindo ao samba. Oxá! Aí cantei o samba, teve aplauso assim mesmo, galinha assada. [risos] Resultado: o homem morreu com 15 dias. Morreu com 15 dias. Então são essas coisas da vida da gente, né, momentos de alegria, momentos de tristeza. São os acontecimentos.

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