gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 30/32

Música para mim é Deus

Tacioli – Riachão, pra fechar faremos mais uma ou duas perguntas. Vamos falar sobre o show, tudo bem? Você falou bastante sobre a farra e da boemia. Como eram? Você continua no meio?
Riachão  Hoje eu não continuo, só faço sentir saudade. Não posso ver, olha aí, cheguei aqui, vi os meninos no Rio com cavaquinho, violão, aí mexe no meu coração. Eu continuo com a mesma vontade da farra, mas só que eu não posso fazer mais essas farras hoje, porque tenho uns compromissozinhos, compreendeu, e aí a gente tem que se mancar um bocadinho. Não pode amanhecer como eu amanhecia. A minha vida era amanhecer o dia. Não é à toa que eu tenho um samba [canta e batuca] “Aí vem você/ Aí vem você / Com uma conversa pra rasgar o meu cartaz / Estou no samba / Me deixe em paz / O dia pra mim vale mais.” Mas quando a nêga vinha pra vir me buscar, o nêgo dizia: [canta] “Olha lá / Vem fulana aí e coisa e tal.” Aí o couro comia. [canta] “Aí vem você / Aí vem você / Com uma conversa pra rasgar o meu cartaz / Estou no samba / Mulher, me deixe em paz / O dia pra mim vale mais”. Então, a minha vida era essa, era samba, era orgia a noite inteira, meu Deus! [canta] “Quando a lua aparece do outro lado / Eu de cá dou meu suspiro / E fico bem preparado / Logo vou chamar o meu companheiro / Pra sair de violão e de pandeiro / Ó Deus! / Quando a lua…”. Então era essa a minha vida.
Tacioli  Têm algumas histórias dessa época?
Riachão  Não, é isso mesmo, compreendeu? A minha história é essa, samba, orgia, cantar a noite toda, cachaça com rum. E foi uma vida jovem. Não tive outra vida. Música para mim é Deus. Então a minha vida é cantar, quando não estou cantando, estou assobiando, mas contando que a música esteja comigo. E não posso fazer as farras de hoje pra não atrapalhar as diretrizes do meu empresário [risos], porque se eu for pra farra, pode surgir um compromisso e aí já era.
Dama  E a Dalvinha?
Riachão  E a Dalvinha? Hoje também já não posso mais fazer uma certa farra porque… Não é porque ela vai me impedir, mas porque tenho que compreender que tenho que descansar, porque nós, né, parceiro velho [dirigindo-se ao Seu Vieira], não somos mais crianças, estamos com nossos quarentão!
Vieira – Quarentão multiplicado por dois.
Riachão – Ô, meus Deus, [erguendo os braços] tome conta da imprensa [risos], que é quem faz essa gente ainda reviver, aparecer. Vamos nós, sambistas, nós do morro, capoeiristas, seja lá quem for da malandragem, agradecer à impressa, porque ela vale ouro. Vocês são uns baluartes! Jesus abençoe a imprensa!
Tacioli  Riachão, mas não foi a imprensa quem te deixou tanto tempo escondido assim?
Riachão  Não, toda a vida a imprensa desenvolveu. Eu não quero saber da minha parte, eu quero saber da parte assim, geralmente. A Bahia não desenvolveu, mas desenvolvia no Rio, antes de São Paulo. Depois São Paulo caiu pra dentro. A Bahia também tem a sua grande parte da imprensa desenvolvendo os artistas. Quero dizer, o meu caso é, a imprensa, pouco ou muito, de acordo com o local, ela desenvolve e ajuda o artista. É por isso que eu peço a Deus que abençoe a imprensa. [risos]

assuntos relacionados
Quem supervaloriza a música brasileira no exterior é a imprensa

Hamilton de Holanda

Tags
Antônio Vieira
Riachão
de 32