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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 29/32

A rádio me chamava de Cronista Musical da Cidade

Seabra  Riachão, quando Jesus lhe manda um samba, ele manda inteirinho? [risos]
Riachão  Inteirinho.
Seabra  Você depois não tem que dar uma trabalhadinha?
Riachão  Não, não, não. Vem logo assim. Todo samba vem logo, como eu cantei o negócio da baleia pra vocês e tantos outros sambas. [canta] “Não me queiras mal meu amor.” Eu não escrevo nada, vem assim [canta] “Não me queiras mal meu amor / Tanto assim / Sua lembrança não foge de mim”. Tudo isso baseado no amor. Vocês amam, todo mundo ama. Tudo é baseado nisso. Como também tem os sambas da tristeza, não é? Agora é mais samba dos acontecimentos, como o rádio me chamava, o Cronista Musical da Cidade, porque tudo o que acontecia saía um samba. Teve um samba foi no tempo do maruí. [n.e. Mosquito comum à região dos manguezais, cuja picada é dolorosa] Naquele tempo as mocinhas usavam um vestido que ia até abaixo do joelho. Agora é que estão usando comprido. Então, só ficava esse pedaço da perna daqui pra baixo. Foi a desgraça que a gente viu o que o maruí fez na mulher. Era uma tristeza, meu irmão! Então a coisa foi tamanha que houve um congresso, uma reunião de médicos em Itaparica, e eu fui convidado. [risos] Isso porque no rádio, quando eu vi as pernas das meninas, a mulher sofrendo, eu disse [canta] “Doutor, dê um fim no maruí / Doutor, dê um fim no maruí / Olha, doutor, dê um fim no maruí, bicho ruim /Olha, doutor, dê um fim no maruí / Doutor, dê um fim no maruí / Bicho pequeno, tão danado, tão ferrudo / Nunca vi peste miúdo pra gostar de castigar / Seja na perna, no braço, na cabeça / No lugar onde apareça, ele gosta de ferrar / Não respeita saia / Gosta de criar intriga / Até mesmo na barriga de uma dona foi picar / Doutor, dê um fim no maruí…”. E aí isso no rádio tocando, tocando, tocando, eu aí fui convidado por uma organização da medicina pra ir cantar esse samba lá em Itaparica, num congresso de médico. E eu fui porque a coisa estava triste. Maruí botou pra quebrar nas pernas, bicho desgraçado! Era uma coisa muito era triste mesmo. O maruí é um insetozinho que deu uma epidemia lá em Salvador, que a coisa foi triste. É miudinho! A gente não enxerga o infeliz.
Luiz Paulo Lima – Tem muitos nomes, né?
Riachão  Cada lugar bota um nome.
Vieira  Ele entra no ouvido, na narina, na boca. Pra você ficar num manguezal pra tirar um caranguejo ou ir pescar, você precisa passar querosene, queimar a pele pra espantar, senão você não trabalha.
Riachão  É isso, é essa marca do bicho.
Vieira  Eu me lembro do meu pai tirar caranguejo. Ele ia com aquele pedaço de madeira, querosene, essas coisas… Ele já te mordeu, Riachão?
Riachão  Eu não sinto mordida, não. A Dalva fica admirada porque eu não me queixo desses bichos, não. A Dalva já fica imaginado quando as pessoas chegam em casa, porque o maruí bota pra quebrar. Foi uma repórter lá em casa e foi um sofrimento. Coitada! [risos]
Dama  Eles gostam só de mulher?
Riachão  É questão de natureza. Tem amigos lá, meu sobrinho mesmo não pode ir lá em casa. Ele vai, mas pra sofrer. [risos] Um negócio sério, eu não sei.

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