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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 28/32

O malandro chorava porque o samba estava morrendo

Tacioli  Riachão, como perguntamos para o Seu Vieira, você acha que a sua vida teria sido diferente se você tivesse vindo pro Rio?
Riachão – Eu acredito que estaria diferente. Porque aqui no Rio de Janeiro e em São Paulo – São Paulo naquele tempo não, mas agora é uma boa para quem vem pra esses lados, porque aqui a turma não pára. Eu fiquei encantado no Rio de Janeiro outro dia, quando fiz um trabalho com o Felipe, e vi na rua como é que se brinca… Lá na Bahia é sexta e sábado que se vê mais uma agitação, nêgo bebendo, essa coisa toda e tal, quero dizer, com mais força. Aqui não, é segunda, é terça, o couro come aí na rua… Eu tive a felicidade… os malandros que estavam tocando com a gente – [n.e. Felipe esclarece que era um regional que acompanhou Riachão no Rio de Janeiro], meu irmão, na rua, que maravilha, meu Deus, fiquei empolgado! Eu que estava com um trombone do lado que é outro pedaço de alegria, o grande Fred Dantas, aí o couro comeu na rua também… Eu comecei a cantar e Fred Dantas com o trombone… Taí a beleza do Rio de Janeiro.
Felipe – Tanto no Rio como São Paulo está acontecendo um movimento do choro, dos garotos estudarem música a sério, mas para tocar música popular, para resgatar repertório, resgatar os compositores. Há fila de garotos pra fazer prova no Villa-Lobos, pra estudar música séria, mas para tocar samba, chorinho.
Riachão  Beleza pura.
Felipe  Isso já teve há duas décadas. Aí deu aquele hiato, mas agora voltou com força…
Riachão  Tem que voltar… Eu me lembro que o nosso samba, eu tenho vontade, quero dizer, eu já conheço, mas tinha vontade dele ouvir esse samba, que eu não sei se vocês se recordam, vocês estão meninos jovens, mas a gente viu quando o samba teve uma caída triste. O samba teve uma caída tão triste, que eu vi malandro chorando na televisão, naquele programa de César Alencar, não estou bem certo o nome dele, acho que é César Alencar. O malandro chorando porque o samba estava morrendo. Foi coisa triste! Foi uma passagem triste pro nosso samba. Entrou esse negócio dessas músicas desses meninos aí, desses negócios de rock no inferno aí, uma passagem que teve que o samba, coitado, recebeu uma chutada na canela e mancou e foi descendo, descendo, descendo… Meu Deus, eu vi a coisa triste! Eu assisti ao programa de César Alencar. Teve malandro que morreu – é porque eu esqueço o nome das coisas, não posso contar assim detalhado, essa parte eu me lembro, que vi na televisão o camarada e César de Alencar conversando com o malandro. Mas Jesus tão bom, imediato, jogou na mente de Martinho da Vila, “Pequeno burguês”. Meus amigos, é coisa séria, “Pequeno burguês” trouxe o nosso samba para estar no lugar que está agora, porque a coisa estava triste pro lado do samba. Então chega Martinho com aquele [canta] “Felicidade / Passei no vestibular”, eu não me lembro direito. Meu irmão, eu vi uma revolução neste Brasil, e em toda a juventude, nos colégios, só dava esse samba de Martinho da Vila. [canta] “Felicidade.” Aí eu digo, “Meu Deus, é o ritmo nosso, está chegando, está chegando!”. E aí lá vem, muita alegria nas televisões aqui no Rio, e o couro comendo e aí voltou a partir desse samba, eu estou aqui – não sei se estou mentindo, meu Deus!. A partir desse samba, o nosso samba tomou lugar. Jesus aqui me manda o samba, quando eu senti essa emoção o samba de Martinho da Vila. Aí, eu tinha que vir pro Rio de Janeiro, não sei, havia uma data pra eu vir, não lembro nem mais o que era que eu vinha fazer, aí eu trouxe esse samba: [canta e batuca] “Cadê, cadê Martinho da Vila? / Está na Vila / Cadê, cadê Martinho da Vila? / Está na Vila / Vem cá crioulo, meu sambista bamba / Somente agora venho lhe abraçar/ Chego da Bahia, trago este samba / Para poder lhe homenagear / O nosso samba que estava morrendo / Quem não tem despeito pode afirmar / Chegou Martinho com Pequeno burguês / O samba veio reabilitar / Cadê, cadê Martinho da Vila? / Está na Vila / Cadê, cadê Martinho da Vila? / Está na Vila / Vem cá, crioulo, meu sambista bamba / Somente agora venho lhe abraçar / Chego da Bahia, trago este samba / Para poder lhe homenagear / O nosso samba que estava morrendo / Quem não tem despeito pode afirmar / Chegou Martinho com Pequeno burguês / O samba veio reabilitar”. E daí pra cá, meu irmão, com sinceridade, o samba não morreu mais. Aí vem alegria, e a alegria está aí, o couro está comendo. Agora cheguei no Rio, os meninos estão aí na rua… Está uma maravilha, meu samba está no céu!

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