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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 26/32

Eu não canso de falar!

Tacioli  E hoje, Riachão, onde você fica, o que você faz no Carnaval?
Riachão – Só fiz um Carnaval tem aí dois, três anos, por causa do filme. O produtor do filme queria fazer uma passagem, não sei nem se essa passagem não passou no filme, porque eles gravam muitas coisas, mas muitas coisas eles não colocam, porque acho que não dá tempo. O tempo corre. Então, fizemos uma passagem no filme, e esse menino, o filho de Dodô, o Armandinho – ele está até no meu CD – toca e coisa e tal, eu também canto e coisa e tal, e passamos por um edifício em que esse menino, o Gil, estava lá na janela e viu eu cantando, aquele negócio no Carnaval, somente pra fazer um movimento, ele filmando, essa coisa toda… [risos] E depois, se não me engano, foi até “Chô, chuá” que ele passou cantando. [canta] “Chô, chuá / Cada macaco no seu galho / Chô, chuá / Eu não me canso de falar / Chô, chuá / O meu galho é Bahia.” Imagine só, os carnavais de hoje… O Carnaval de hoje, meu Deus, é uma tristeza! Você vê, os homens cantam essa música o ano inteirinho, é essa mesma música que passa no Carnaval. O povo não liga pra nada, só quer pular… Meu Deus, antigamente a gente fazia música mediana, quando chegava uma certa data, largava essa parte da música mediana, começavam os malandros a compor, como você via no Rio de Janeiro, “O teu cabelo não nega”, e tantas músicas que fizeram o sentido carnavalesco; o samba era diferente, com aquele gingado de Carnaval. Hoje não tem mais isso.
Dafne  Não fazem mais música para o Carnaval.
Riachão  É, não fazem mais. Então, eu não abraço o Carnaval de hoje por causa disso.
Tacioli  Nesse Carnaval [n.e. 2004] você vai fazer o quê, Riachão?
Riachão  Não, minha vida está entregue a Jesus e ali, o simpático, meu querido empresário, se arranjar alguma coisa pra gente fazer… Fora disso, o malandro fica em casa. Fico em casa ou na roça trabalhando. Não saio pra fazer nada. E assistir ao desfile daqui do Rio, que é o samba autêntico. Isso aí eu vou ver.
Tacioli – Mas você não vai nem no Pelourinho, que tem blocos com marcha?
Riachão  Lá estão fazendo uma lembrança do Carnaval antigo. Eu até estou parabenizando o prefeito, os meninos da velha guarda que estão tocando as nossas músicas do passado. Eu estou muito feliz com isso. Mas é a base dos músicos, os cantores que ainda se lembram daquelas músicas antigas e coisa e tal. Mas eu mesmo ainda não tive a felicidade, estou parabenizando, mas ainda não tive a felicidade de ir lá.
Dafne  No Rio voltou, há uns cinco anos, a ter blocos na rua.
Riachão  Na rua? Isso é que interessa, é isso que é o Carnaval! É o que tinha na Bahia e não tem mais.
Dafne – Há tantos blocos que cantam marchas antigas, como outros que fazem tema pro ano.
Felipe – Tem até a Sebastiana [n.e. Associação dos Blocos do Rio de Janeiro, cujo nome refere-se a São Sebastião, dia 20 de Janeiro, aniversário da cidade do Rio de Janeiro]…
Riachão  Você vê… Estou com uma música nova aí, não sei se viram. Como essa música nova dava bem pra Carnaval, mas você não vê mais uma música nesse jeito. Uma música nova do ano passado. [canta] “Quero uma, quero duas, quero três / Quero quatro, quero cinco, quero seis / Não adianta brigar por amor / Amar só uma de cada vez”. [risos] Você vê o sentido da música carnavalesca, não é? Mas você não vê esses rapazes aí que estão com esses grupos, esses negócios, tirar uma coisa assim, que você sinta o Carnaval naquilo que eles cantam. Você vê a diferença com que eles fazem um negócio aí, com não-sei-o-quê, diz que é Olodum, não-sei-o-quê mais… Mas você não vê uma coisa dessa. [canta] “Quero uma, quero duas, quero três / Quero quatro, quero cinco, quero seis / Não adianta brigar por amor, amar só uma de cada vez / Eu só quero uma, basta uma só pra esse mês / Eu só quero uma / Como eu já disse / É uma de cada vez”. [risos]
Seabra – Pode ser o hino do Gafieiras, né, Tacioli?

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