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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 25/32

A beleza do Carnaval da Bahia se acabou

Seabra – E sua história com o Carnaval de Salvador? Você participava? E como foi com a chegada dos trios elétricos?
Riachão – É, a beleza do Carnaval da Bahia se acabou, porque no Carnaval da Bahia daquele tempo o povo ficava na avenida, em toda a avenida, a família sentada na porta. Todos tinham suas cadeiras numeradas, não-sei-o-quê, e o pessoal ficava sentado para assistir ao desfile do Carnaval. Existiam os Fantoches, os Vermelhos e os Inocentes; são os clubes maravilhosos. E os Malandros. Grupos de Carnaval, micaretas, essa coisa toda. Nesse tempo ainda estava a felicidade das serpentinas, o lança-perfume, havia batalhas. Era um Carnaval maravilhoso. Era o tempo das músicas lindas do Rio de Janeiro, “Teu cabelo não nega” e tantas outras do Rio de Janeiro que a gente esquece agora. E nesse tempo a coisa era maravilhosa o Carnaval. Eu, por exemplo, saía na batucada – o nome aqui era batucada, no Rio de Janeiro era escola de samba. Então fazia aquela batucada os malandros e eu saía na batucada que tinha o nome de Malandro do Amor.
Tacioli – [risos] Malandro do Amor?
Riachão  Malandro do Amor, compreendeu? E aí vinha aqueles malandros todos cantando, mas o povo estava na avenida, sentado, e assistia aos malandros cantarem. A gente chegava com a nossa batucada, fazia aquela frente no meio do povo e cantava as músicas de alguém. Parece que, na lembrança assim, não sei, uma música que eu tocava. [canta e batuca na mesa] “Quem disse que Quelé não vai sair / Quem falou, faltou com a verdade / Vai, vai sair / Se não sair, vai deixar saudade/ Quem disse que Quelé não vai sair / Quem falou, faltou com a verdade / Vai, vai sair / Se não sair, vai deixar saudade / Todo ano falam, falam como quer / Eu não sei se homem ou se é mulher / Que língua ferina, fala o que não é / Por favor, eu peço / Deixa a vida de Quelé / Deixa minha vida [segunda voz] / Quem disse que Quelé…” Me chamavam de Quelé também. E havia uma turma na Bahia que também tinha esse nome de Quelé. Era um negócio sério! Então o povo ficava no Carnaval ali sentado pra assistir a esses malandros cantarem. Não era como hoje. Depois quando saiu o trio, logo no princípio, o trio cantava sem zoada. Não era, não botava essa força. Era esse menino, o nosso querido, qual é o nome dele, o dono do trio, o criador do trio… Osmar! A gente teve um encontro antes de ter trio. Eu me lembro que, naquele tempo, os malandros da Bahia saíam assim, violão, cavaquinho, e se encontravam um com o outro, e aí tinha aquele debate pra ver quem cantava mais, quem tocava mais, e assim… Mas tudo em amizade, era quem tinha mais movimento, etc. E eu tive um encontro com Osmar, Osmar e Dodô, como são conhecidos – vocês devem saber que Osmar e Dodô foram os nomes principais do trio elétrico. E eu, com pandeiro, outro malandro, com cavaquinho – que hoje está até preso, sinto muito, Deus tome conta dele, porque ele está lá, não sei quando vai sair da cadeia –, e um outro que cantava comigo, que era aleijado, não tocava nada, nos encontramos ali na Praça Castro Alves. Era uma noite, a lua vinha despontando por cima da igreja… Aí começou o duelo com o Osmar e Dodô. Eles em solo e nós em modinha. Resultado: eles solam uma, a gente canta outra modinha. Cantei vários sambas. Aí terminou, Dodô não tinha mais nada pra solar. E eu continuei com meus malandros cantando samba como um bonde que a gente tinha. Aí o resultado: terminei com o samba “Noite enluarada”, que foi a penúltima música; não foi última porque eu não morri. [risos] A penúltima música que cantei no duelo com esses malandros, Dodô e Osmar. [canta e batuca na mesa ] “Foi numa noite enluarada / Quando nós cantava essa toada / A lua com seu manto prateado a nos olhar / Nosso cavaquinho ficou a soluçar / Foi numa noite enluarada / Quando nós cantava essa toada / A lua com seu manto prateado a nos olhar / Nosso cavaquinho ficou a soluçar / A lua veio ali / e a estrela acompanhou / Disse para mim: diga a sua dor / Eis razão que o cavaquinho soluçou”. Ê, menino, que saudade, que encontro com esses malandros. E abraços e etc., etc. Aí nasceu a minha amizade com Dodô e Osmar, nessa noite na Praça Castro Alves, nesse duelo de malandro, como acontecia com diversos na Bahia. Os malandros se encontravam pra tocar um pro outro. Havia essa vida maravilhosa, compreendeu, naquele bom tempo.

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