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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 24/32

"Riachão, esta mulher quer te levar para o Rio"

[Já no 27º andar]

Riachão – Nós estávamos…
Tacioli – Vamos esperar eles encerrarem ali.
Riachão – Mas foi emocionante esse dia da Rainha Elizabeth.
Tacioli – Qual foi a repercussão?
Riachão – Havia muita gente pra ver a chegada dela, muita alegria. Mas mais emocionante foi eu ter feito essa modinha e as autoridades terem me chamado para cantar. Eu fiz em casa. Nunca tive muita sorte em ter alguém para me produzir. Eu estava pelejando agora para me lembrar a modinha. Isso é coisa de tantos anos que a gente esquece, a da Rainha Elizabeth. Então o nosso querido, ele, até o nome das minha autoridades eu estou esquecendo. Pessoal de Antônio Carlos Magalhâes. Nós estávamos aonde? Mas era uma modinha, foi emocionante, a Rainha Elizabeth, a realidade. Veio muita gente pra ver a chegada dela. Muita alegria. E o mais emocionante foram as autoridades que me chamavam pra cantar. Por exemplo, eu nunca tive muita sorte para encontrar alguém que me produzisse, entendeu? Nunca tive sorte pra isso, não! Agora que eu encontrei uma grande figura, já depois de velho, esse famoso amigo que está me trazendo assim pra esses outros cantos. A minha vida foi mais ali mesmo, cantando e brincando. Quando encontrei uma oportunidade pra vir ao Rio, não pude por causa da família. Eu fiz um show, não sei se vocês se lembram, quando teve “Ouro para o Brasil”, que teve esse corre-corre no nosso país, “Ouro para o Brasil”. Então, a Rádio Sociedade da Bahia armou um show dentro do palácio e veio uma menina do Rio, que era Dilu Melo [n.e. Maria de Lourdes Argollo Oliver, 1913-2000, cantora, compositora e instrumentista maranhense ], se não me engano. Essa garota foi cantar comigo no Palácio. Ela queria me levar pro Rio de Janeiro, porque quando cantei, ela ficou muito empolgada… Cantando “Ousado é mosquito”, cantando “Cada macaco no seu galho”, essa modinhas. E quando terminou, ela falou pro diretor, que era Paulo Nassif. Aí ele veio a mim e disse: “Riachão, esta mulher quer te levar para o Rio”. Eu disse: “Como? E meus filhos, minha nêga? Aí não dá, doutor.” Aí pronto, perdi essa chance de estar na famosa Rio de Janeiro e encontrar as figuras pra me botarem pra frente. Aí fiquei nessa aí, na Bahia, até quando tive a felicidade de estar num programa que a rádio criou, Vai queimar um Judas, porque foi aí que se iniciou o primeiro passo da minha felicidade artística. Aí o Jackson do Pandeiro foi prá lá, porque a Rádio Sociedade da Bahia convidava todos esses artistas do Rio de Janeiro. Eu tive conhecimento deles todos por causa desses programas. Um Vicente Celestino, com Augusto Calheiros, com Ataulfo Alves, Orlando Silva, toda essa turma do Rio de Janeiro eu tive a felicidade de conversar e abrir o programa do rádio, porque quem abria o programa era eu, não é, pra depois os visitantes entrarem no ar. Então tive essa felicidade no rádio. Mas para negócio de gravação, só nasceu depois do conhecimento do meu querido Jackson do Pandeiro. Eu estava em Campo Grande fazendo uma chamada para a turma se juntar e fazer a passeata até a Praça da Sé. Eu cantava [canta e batuca] “Vamos ver queimar Judas traidor / Vamos gargalhar na hora da dor / Saindo do Campo Grande / Desfilando a pé / Quero ver bem menino / Quero ver bem mulher / Todo mundo sambando na Praça da Sé”. E aí, enquanto eu cantava, eu só ouvia voz de dueto sair do lado, que ele estava assim na minha esquerda, eles dois, ele e Almira [Castilho]. Eu e o meu parceiro cantando o “Judas Traidor”, daqui a pouco sai um dueto do meu lado esquerdo… Menino, que coisa bonita! Meu Deus! Eles dois cantando a mesma música em dueto! Eu tomei aquele susto assim, cantando, vi aquela beleza sair assim do lado, eu fiquei empolgado, cantando, e eles dois, ela com aquela voz feminina, aquilo engrossou mais o negócio, ficou mais bonito… Ah! Quando terminou, que alegria, meu Deus, que alegria! Aí que eu vim conhecer o Jackson do Pandeiro nesse dia, porque eu não conhecia. Eu sabia do sucesso, mas não conhecia o Jackson do Pandeiro. Aí passamos a ser amigos, essa coisa toda e tal. E dali fomos pra Praça da Sé, eu sempre cantando essa música, porque era o dia da festa pra queimar o Judas, eu continuei e a avenida toda cantando o “Judas Traidor” até chegar na Praça da Sé, que era o lugar do show. E quando chegamos lá, o Jackson do Pandeiro apresentou a música dele e eu continuei cantando o “Judas Traidor”, e dali nasceu nossa amizade. Por isso eu tive minha primeira música gravada, que era sucesso lá na Bahia, que era “Meu patrão”, “Judas Traidor”, “Saia Rôta”, “Retrato da Bahia”, essas músicas já eram sucesso! Eu tinha o maior cartaz na Rádio Sociedade da Bahia. O povo ia somente pra ver este malandro, porque eu tinha uma mania de cantar… Havia umas meninas, que eram do Rio de Janeiro, que se chamavam – não sei se vocês sabem – as Cabrochas da Jupira. [n.e. Na verdade era Jupira e suas Cabrochas] Havia essas meninas que iam daqui pra lá, e eu na hora da minha apresentação, eu levantava, suspendia a calça, fazia um bocado de bagaçaria no palco. Eu suspendia e arregaçava a calça pra cantar. Era um negócio certo… [canta e batuca] “Todo mundo espiou / Quando a saia dela voou / Meu Deus / Todo mundo espiou / Quando a saia dela voou / O batuque estava bom / Sinhazinha só sambando / A saia cheia de ouro / E o neginho só espiando / Meu Deus / Todo mundo espiou / Quando a saia dela voou…”. E eu pra cantar isso aí era um negócio, jogava uma capoeira, pegava a saia da menina do Rio de Janeiro e fazia que ia levantar, a raça gritava… Era um inferno! [risos] E assim eu conheci essa turma toda do Rio de Janeiro quando ia lá pra Bahia. Eu tinha a maior felicidade com os meus programas, com essa gente toda. Um dia eu cantei um samba para o Ataulfo Alves, com aquelas cabrochas dele… [canta] “Ela / Não tem pudor / Não tem vergonha / Não tem valor / Ó, Senhor / Vós não errou / Mas o nome de mulher ela manchou / Ó, Deus! / Ela / Não tem pudor / Não tem vergonha / Não tem valor / Ó, Senhor / Vós não errou / Mas o nome de mulher ela manchou / Abusou de minha bondade / Lhe dei confiança / Foi o que eu mais senti / Foi minha amante / Não sinto saudade / Porque meu lar / Ela quis destruir”. Então, ó, rapaz, o Ataulfo Alves com suas cabrochas, ouviu e, naquele sentimento, me abraçou. Então, são os momentos na nossa vida que a gente passa, né, na vida artística. Naquele tempo não havia ainda o Teatro Castro Alves. Todos os sambistas, todos os artistas iam para Barbalho, que se chamava Instituto Normal. Era onde os artistas iam cantar. Instituto Normal, né, lá no Barbalho.

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