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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 23/32

Eu era levador de irmãos para o cemitério

Seabra  Isso, na verdade, foi uma transformação da sua vida…?
Riachão  Da minha vida, de sertanejo para o samba.
Seabra  Nessa época você estava mais boêmio?
Riachão  Não, a boemia sempre foi comigo, desde nove aninhos de idade que eu canto. Tomar cachaça comecei com nove aninhos de idade. [Antônio Vieira ri] E até cantar era comigo. E uma passagem muito triste também… Eu era levador de nossos irmãos para o cemitério. Eu fazia muita sentinela. Tudo por causa da cachaça. Eu era conhecido! Eu tinha parceiros de música e tinha parceiros de sentinela. Já tinha dois companheiros que eram bons pra amanhecer o dia contando caso e corpo aí, pra poder amanhecer o dia, porque muita gente não agüentava porque ia embora. Antigamente não tinha esse negócio de velório. A gente ficava com o corpo até de manhã. E tinha muita gente que não agüentava e ia pra casa. Mas eu tinha meu parceiro que agüentava a sentinela até de manhã. Aí contando caso, e haja cachaça! Mas eu tinha uma sabedoria: em casa eu fazia um embrulho de farofa e carne-do-sertão assada que é pra agüentar a cachaça da madrugada.
Seabra  Mas você tinha quantos anos?
Riachão  Nessa época já era mais velho, já estava com meus 18 anos. O couro comia nessa base aí. Então o que eu fazia? O café da sentinela era meia-noite, mas só saía café e bolacha, e pra quem estava tomando cachaça como um bonde… Mas o meu embrulho já estava guardado, pra mim e para dois companheiros. E na hora desse café, a gente dava uma saidazinha, deixava o corpo, e saía, nós três. Mas distante da casa do defunto a gente pá pá pá pá, comia aquela farofa, se preparava e voltava. E aí amanhecia o dia tomando cachaça nessa sentinela. [risos] Essa é uma passagem da minha vida. E na base da música desde nove aninhos, quando era convidado para as festas de aniversário. E o malandro ia, mas cantava as músicas do Rio de Janeiro, né?
Tacioli – O que cantava?
Riachão  Nem me lembro, aquelas músicas que eu disse que a parte da minha vida, esse grande Vieira, se armava aquela vitrola e se cantava aquelas músicas lá do Rio. Se não engano [canta], “Dizem que a mulher é parte fraca / lá ra ra lá / Isso é que eu não posso acreditar / lá ra ra lá / Entre beijos e abraços / lá ra ra lá”… Essas músicas que havia no fonógrafo. Então, eu aprendia aquilo e cantava nos aniversários. Aniversarinho de criança, isso na idadezinha de 10, 11 anos. E aos 12 anos também fui convidado pra dançar em terno, existia muito terno naquele tempo, as festas de Reis. Aí havia o estandarte, que era o rapaz, e a criança que dançava com o boneco. Eu fui convidado pra sair no terno, porque eu era um menino muito fagueiro, jogava capoeira, tinha aquela coisa toda e tal, me levaram pra ir pro terno. Eu pegava o boneco, dançava, fazia “gatimonha” com o boneco, então era aquela beleza os ternos, Noite de Reis. Bom isso foi a vidazinha que foi levando, do malandro aqui nessa idade 12, 13, 14 anos. Com 12 anos fui aprender o ofício de alfaiate. Entrei na Alfaiataria Cardin, meu pai me levava, eu ia na carroça e ele me deixava na porta da oficina. Aí trabalhava o dia todo aprendendo o ofício. Depois fui crescendo… Com uns 15 anos, mais ou menos, já estava trabalhando na Baixa do Sapateiro numa outra alfaiataria, na Rua das Flores. Depois fui trabalhar com o Spinelli. Vocês são de São Paulo, mas já ouviram falar do Spinelli lá na Bahia. E eu fui trabalhar com o pai dele. Havia o Spinelli Filho, com os slogans no rádio: “Adão não se vestia porque Spinelli Filho não existia!”. Isso era o que se falava no rádio. Mas eu fui trabalhar com o pai dele, Spinelli Pai. O pai dele tocava violão. A minha vida sempre cantando, ou cantando ou assoviando. E um dia, eu estou sentado, costurando e cantando, quando ele foi passando e me viu cantando um samba… Ele aí parou e disse: “Neguinho, que música é essa que você está cantando?” “É uma música minha.” “Venha cá.” Deixei a costura e fui. Ele pegou o violão. “Cante aí pra mim.” Eu aí cantei a música que foi. [canta] “Alguém me disse que viu você na esquina lendo uma cartinha? / E cuja carta continha palavras dolentes de muita alegria / Também me disse que viu você fazer juras do amor não se acabar / Mas se ele é inocente / Eu passei este golpe / Ele pode passar, meu Deus? / Alguém me disse que viu você na esquina lendo uma cartinha / E cuja carta continha palavras dolentes de muita alegria / Também me disse que viu você fazer juras do amor não se acabar / Mas se ele é inocente / Eu passei este golpe / Ele pode passar / Eu que sempre tenho a dizer que conversa de amor nem toda se crer / Pois se Jesus foi traído, nós, um com o outro, também pode ser / Também conheci alguém que teve amizade, só com a morte acabou / Mas se eu sou infeliz / Estou resolvido a viver / Sem amor.” [ri] Ele viu eu cantando isso. Aí ele me chamou e cantei pra ele. Ficou encantadíssimo e passou essa música para o papel, porque ele escrevia a música. Foi um dos momentos na Alfaiataria Spinelli Pai.
Seabra – E instrumento você não tocava?
Riachão  Nada, nunca toquei instrumento nenhum. Minha vida era tocar pandeiro. Pandeiro eu tocava, mas instrumento nenhum. Pelejei muito, comprei não sei quantos cavaquinhos, não sei quantos violões, e não deu jeito de tocar, de aprender. Foi uma vida feliz que eu passei nesse tempo. E outras passagenzinhas que o seu amigo esquece. Ainda me lembro… tem uma passagenzinha… coisinhas da vida nossa… Eu tinha um parceiro, voltando à vida sertaneja…
Tacioli – Riachão, desculpe-me interromper, mas vamos subir para o 27º andar onde fecharemos a entrevista e fotografaremos você junto ao Vieira.

[Começa a chover. Todos sobem para uma das salas do hotel]

Tacioli  Pode ser? Vamos subir?
Riachão – Vamos, vamos, vamos. Estamos sob o comando de vocês.
Tacioli – O comando é seu, Riachão.

[Riachão segue cantando]

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