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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 21/32

Entrei no rádio cantando música sertaneja

Tacioli – Riachão, como era o Batatinha?
Riachão  Batatinha foi um grande amigo, companheiro lá da Bahia. Ele trabalhava como datilógrafo, na imprensa, e eu como cantor. Eu fui cantor primeiro que Batata. Batata entrou pra ser artista na chegada de Antônio Maria. Antônio Maria foi quem descobriu Batatinha. Mas eu já era o malandro do rádio desde 44. Eu entrei com um diretor, que eu até gostaria que vocês me dessem notícia dele, se ele está vivo ou morto, o Mota Neto, não sei se vocês conheceram. O grande Mota Neto foi o diretor da Rádio Sociedade da Bahia e foi quem me empregou, em 1944. Eu entrei cantando música sertaneja e naquelas idas e vindas, o nosso querido diretor, o Mota Neto, que gostou muito de minha pessoa cantando música sertaneja, procurou saber se era baiano. Eu disse que eu era baiano, e ele não acreditou. “Não é possível que você seja baiano. Eu já fiz pesquisa aqui. Não tem um só sambista aqui que tenha esse jeito seu. Você nasceu aqui mesmo?” “Nasci no Garcia.” Ele ficou encantado com as minhas composições sertanejas. Eu entrei cantando [canta e batuca] “Oi minha linda morena / Eu tenho pena de te deixar / Tu és minha companheira / Eu não posso desprezar / Se algum dia eu ir pra riba / Linda morena / Vou te levar / Se algum dia eu ir pra riba / Linda morena / Vou te levar / Quando nós chega lá / Vou arranjar / Onde fazer a morada / É uma palhoça bonitinha na beira da estrada / Ô, que coisa linda / Nós dois trabalhando na enxada / Ô, que coisa linda / Nós dois trabalhando na enxada / Quando nós tiver um filho / Nós bota ele pra estudar / Depois que tiver crescido / Nós ensina ele a tocar / E quando nós tiver velhinho / Sentar na porta, mode apreciar / E quando nós tiver velhinho / Sentar na porta, mode apreciar.” Então, o Mota Neto ficou encantado com isso e disse: “Não é possível que você tenha nascido aqui”. Aí mandou eu cantar outra. E cantei outra música sertaneja: “ “Segunda-feira eu brinco / Terça-feira eu descanso / Quarta-feira vou à missa / Beijar o pezinho do santo / Quinta, sexta vou trabalhar / No sábado vender tamanco / Ô, compadre / Domingo é dia de branco / Ô, compadre / Domingo é dia de branco.” E assim eu fui cantando essas modinhas pra ele. Ele ficou encantadíssimo e me empregou na Rádio Sociedade da Bahia, em 1944.

O sambista Batatinha fotografado em 1983 pela húngara Madalena Schwartz. Foto: reprodução

Seabra  Esses dois temas tinham a ver com sua vida? De onde veio essa pegada?
Riachão – Não. A minha vida mesmo não é essa. Eu saia com meu pai. A vida nossa era a vida dentro do nosso quintalzinho, sempre trabalhando nessas coisas. E me parece que eu tenho o sangue ou a natureza de sertanejo, porque eu gosto muito do povo sertanejo, eu amo o pessoal do interior. E é por isso que Jesus colocou essa parte sertaneja em mim.
Tacioli  E o que você fazia no rádio quando começou, Riachão?
Riachão  Eram somente esses programas para abrir o rádio de manhã. O Mota Neto me colocou pra abrir o rádio de manhã. Cinco horas da manhã eu abria o rádio cantando essas músicas. “Linda morena”, “Preto ou branco é pecador”, “Beijo molhado”, que é uma das músicas que eu gosto muito.
Luiz Paulo Lima  Como é “Beijo molhado”?
Riachão – “Beijo molhado” é uma modinha que, se não me foge à memória, diz… [silêncio] Vou cantar uma outra. É o esquecimento! Vou contar uma história dessa outra toada que vou cantar. Eu trabalhava no rádio, como estou dizendo a vocês, colocado por Mota Neto. Depois nosso Mota Neto foi embora. Aí veio um outro diretor, que não ia com a minha cara. E me perseguiu muito. Não deixava eu trabalhar nos programas. Ele me cortava. Eu ficava mais parado – já empregado no rádio – que cantando. Então eu senti que era uma perseguição. Mas como eu tenho essa natureza, de tudo que se passa comigo, Jesus manda uma música, então eu tirei uma música pra cantar com meus companheiros. O dia em que tive oportunidade de fazer o programa, eu joguei essa música no ar. Sertaneja. “Eu trabalhava numa fazenda / Oi, que coisa pra fazer dor / Teve lá nessa tal fazenda / Teve outro administrador / Mas quando o burro chegou / Oi, meu trabalho não prestava / Eu trabalhava numa fazenda / Oi, que coisa pra fazer dor / Pois o patrão lá da fazenda / Não gostava de homem de cor / Mas quando o burro chegou / Oi, meu trabalho não prestava / Eu sei que eu sou meio pretinho / Mas tenho ideia de artista / Eu saí daquela fazenda / Mode não zangar a policia / O burro era racista / Por isso eu fiz minha pista / Ê”. Então eu cantei essa música contra o diretor que não gostava de mim. Eu esqueço o nome dele agora. E assim por diante, dentro da Rádio Sociedade da Bahia, foi toda a minha vida cantando música sertaneja.

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